segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Manifesto sobre o projeto de lei que cria o Programa Auxílio-Creche

Olá Pessoal!
Divulgo o manifesto assinado por diferentes Movimentos Sociais a respeito do Programa Auxílio-creche. O Assunto é sério e precisamos nos manifestar com rapidez. 
Segue uma carta do Fórum Social de Cidade Ademar e Pedreira com um email para aqueles que quiserem assinar esse documento.
Abraços preocupados!
Janaína

 Carta do Fórum de Cidade Ademar e Pedreira

Prezad@ amig@ que deseja melhorar nossa região e nossa cidade:

Na semana passada, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou o Projeto de Lei 108/2009, que prevê o pagamento de R$ 272,50 (meio salário mínimo) mensal para cada criança que não consegue vaga em creche. Embora o valor possa representar um ganho financeiro para as mães e os pais destas crianças, o projeto não resolve o problema da falta de creches na cidade de São Paulo.
Entidades que atuam na área de educação infantil e movimento de mulheres são contrários ao projeto de lei, que institui o Programa Auxílio-Creche.
De acordo com estas organizações, a proposta transfere a responsabilidade pelo problema (da falta de vagas em creches) para as mães e os pais e a iniciativa privada.
Por essas razões, elaboraram o manifesto abaixo, solicitando que o prefeito Gilberto Kassab não sancione o mencionado projeto.

O Fórum Social da Cidade Ademar e Pedreira discutiu o assunto em sua última reunião - realizada dia 6/8 - e decidiu, por unanimidade dos presentes, assinar o manifesto junto com as demais entidades.

Decidimos ainda repassar o documento para que outras entidades, organizações e movimentos sociais possam também subscrever o texto.

Portanto, sugerimos que leia o manifesto abaixo e, se concordar com seu conteúdo, envie um meio para samantha.neves@acaoeducativa.org autorizando a colocação do nome de sua entidade, organização ou movimento como assinante do documento.

O prazo para subscrever o manifesto termina na próxima quarta-feira, dia 17 de agosto. Após esta data, o documento será encaminhado ao prefeito e ao secretário municipal de Educação.

Agradecemos a atenção de todos.

Saudações fraternas,

Fórum Social da Cidade Ademar e Pedreira

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Manifesto:

São Paulo, 12 de agosto de 2011.

Ilmo. Sr Prefeito Gilberto Kassab
Ilmo. Sr. Secretário Alexandre Schneider

Solicitamos ao Sr. Prefeito que não sancione o Projeto de Lei n. 108/09, recentemente aprovado pelo Plenário da Câmara Municipal de São Paulo. Consideramos inadequada a proposta de instaurar um Programa de Auxílio-Creche às mães que aguardam atendimento nas creches do município de São Paulo. É louvável que o Legislativo Municipal se preocupe com a necessidade de ampliação do atendimento à Educação Infantil em São Paulo. No entanto, propostas como essa se revelam ineficientes, pois não atendem ao direito da criança à educação, nem ao direito dos/as trabalhadores/as de terem seus filhos freqüentando creches e pré-escolas, contrariando o que designa a nossa Constituição Federal nos artigos 7, XXV e 208, IV. É direito da criança o acesso a creches e pré-escolas de boa qualidade, é opção das famílias matricularem suas crianças e é dever do Estado o provimento do atendimento na rede de educação formalizada, com garantia de qualidade e oferta por parte do poder público, para todas aquelas famílias que assim o desejarem.
Reiteramos aqui o posicionamento de diversos fóruns e movimentos de Educação Infantil e da educação em geral, assim como o posicionamento dos movimentos de mulheres, apresentados em fórum público na Câmara Municipal, no dia 29 de abril de 2009 e em audiências públicas para discussão do citado projeto de lei em 2010: o cumprimento do direito à educação de qualidade desde o nascimento e ao longo de toda a vida e a recusa a medidas paliativas que responsabilizam as mulheres pelo cuidado e educação de seus filhos pequenos.
Propostas como essa, em vez de fortalecer as famílias, fortalecerão os programas de guarda domiciliar e escolas particulares de baixa qualidade. O atendimento nas instituições de Educação Infantil significa a garantia de que as crianças estejam em um ambiente coletivo em que sejam cuidadas, tenham vivências com outras crianças e adultos, brinquem e produzam cultura, ao mesmo tempo em que as/os familiares se sintam apoiados e valorizados, sintam-se responsáveis pela educação compartilhada das crianças pequenas, em instituições que respeitem e fortaleçam os vínculos familiares e que sigam os pressupostos de um atendimento de qualidade.
Todas/os sabemos que, apesar de significativos avanços nos últimos anos, no que diz respeito à ampliação de matrículas nas creches e pré-escolas, o direito à Educação Infantil no município de São Paulo não foi plenamente garantido. Especialmente com relação às crianças de 0 a 3 anos, a cobertura do atendimento no município ainda é baixa, embora superior à maioria dos grandes municípios de nosso país: 14,5% das crianças de 0 a 3 anos, enquanto temos 63,8% das crianças de 4 e 5 anos e 95,2% das crianças de 5 e 6 anos atendidas em creches ou pré-escolas (dados do Seade e Censos Escolares de 2006, sistematizados pelo Tribunal de Contas do Município) - para dados mais atuais, os resultados da PNAD de 2009 e do Censo 2010 ainda não foram sistematizados por localidade, apenas por região: no Sudeste, atualmente a média é de 22,8% das crianças de 0 a 3 anos freqüentando creches. Em números absolutos, temos atualmente em São Paulo quase 192 mil crianças matriculadas nas creches e 187 mil crianças matriculadas nas EMEIs (dados de abril de 2011, Centro de Informática de SME).
Em discussões conjuntas, temos apontado alguns princípios centrais para a ampliação do atendimento público da Educação Infantil no município:
-           a universalização, com prioridade inicial ao atendimento à demanda nas áreas de maior vulnerabilidade social;
-           o atendimento integrado das crianças de 0 até 6 anos;
-           a ampliação do atendimento com qualidade (grupos menores, materiais e espaços adequados, formação dos profissionais de Educação Infantil, supervisão adequada, projeto pedagógico consistente e construído coletivamente, entre outros).
Além disso, gostaríamos de reafirmar o que estudos de pesquisadoras da área de estudos de gênero têm apontado: o importante impacto que a garantia de atendimento às crianças em creches têm sobre o aumento da renda das mulheres e das famílias. Ou seja, responsabilizá-las individualmente pelo cuidado de seus filhos pequenos terá também um impacto negativo sobre a renda das famílias.
Por fim, a proposta do PL 108/09 tem sido defendida por alguns pressupostos que gostaríamos de discutir:
- a idéia de que não será possível para as diversas esferas do poder público - municipal, estadual e federal – atender rapidamente a toda a demanda. Se a Educação Infantil é uma prioridade pública, recursos estão sendo e devem ser utilizados para tanto e rapidamente;
- o valor proposto (bolsa auxílio de 1/2 salário mínimo por criança que aguarda uma vaga) é equivalente ao per capita destinado às creches conveniadas, responsáveis pelo atendimento de cerca de 77% das matrículas em creches no município;
- afirmar que esse projeto gerará empregos é reafirmar a lógica de responsabilização das mulheres e do atendimento privado na Educação Infantil.
Questionar as propostas de bolsa-auxílio creche não significa desconsiderar - muito pelo contrário - as dificuldades das mulheres que buscam alternativas para o atendimento de seus filhos, mas sim afirmar que essa iniciativa não leva em conta os direitos das mulheres e das crianças pequenas: o atendimento de qualidade em instituições coletivas.
Dispomo-nos - como já vimos fazendo - a formular e discutir com rapidez propostas para a rápida ampliação do atendimento nas creches do município, orientadas pelos princípios enunciados anteriormente, de garantia do direito à Educação Infantil e, portanto, pública – como a construção de novas creches diretas e a ampliação dos convênios com entidades sem fins lucrativos.
Atenciosamente,
Aprofem – Sindicato dos Professores e Funcionários do Ensino Municipal de São Paulo
Fórum de Educação Infantil das Entidades Conveniadas
Fórum em Defesa da Vida e pela Paz
Fórum Paulista de Educação Infantil
Fórum Regional de Educação Infantil – Grande São Paulo
Fórum Social da Cidade Ademar e Pedreira
GT Educação da Rede Nossa São Paulo
Movimento Creche para Todos
Movimento Nossa Zona Leste
Sinesp – Sindicato dos Especialistas de Educação do Ensino Público do Município de São Paulo
União de Mulheres de São Paulo

XIV SEMINÁRIO DE EDUCAÇÃO INFANTIL INFÂNCIA É ASSUNTO SÉRIO!

Olá Pessoal!
Entre os dias 19 e 21 de agosto acontecerá o XIV Seminário de Educação Infantil no Prisma Centro de Estudos. 
Haverá palestras,mini-cursos e Workshops.  
A Palestra de abertura tem como tema a discussão das experiências italianas e seus desdobramentos nos contextos brasileiros e será ministrada pela Prof. ELISABET RISTOW.
Os  workshops tem diferentes temas que perpassam pelas múltiplas linguagens :brincar e o faz-de-conta, a leitura e a escrita, a matemática, ciências, o desenho infantil. Já os mini-cursos irão discutir o currículo para a educação infantil; a organização dos tempos e espaços;  os projetos e as múltiplas linguagens; e a transição para o ensino fundamental.
Quem quiser saber mais informações, é só clicar no link: http://www.prismacentrodeestudos.com.br/site/seminario.asp

Abraço!


sábado, 13 de agosto de 2011

Diário de um formador

Olá Pessoal!
Hoje faço a indicação do blog "Diário de um Formador". Mantido pela Coordenadora Pedagógica Irene Marassi, a idéia do blog é compartilhar as inquietudes, possibilidades, descobertas e sonhos que envolvem o ofício de ser profissional das instituições da infância. Nas palavras de Irene, o blog "é  um espaço para celebrarmos o valor de "ser junto" e convidarmos um grupo a pensar, construir e resignificar as possíveis respostas para as muitas inquietudes do nosso oficio".
Aproveito para divulgar também o blog do CEI Waltinho, no qual Irene é coordenadora: http://ceiwaltinho.blogspot.com/
 Não deixem de conhecer!
Abraço! 

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O Aprendizado da leitura e da escrita na Educação Infantil


Olá a todas e todos!
No dia 29/07 participei do XVIII Congresso Brasileiro da OMEP (Organização Mundial para a Educação Pré-escolar) discutindo o tema da alfabetização na educação infantil. Na ocasião, me fizeram várias perguntas a respeito do tema, algumas muito parecidas com as quais recebo aqui constantemente pelo blog. Gostaria de refletir essas questões com vocês.
É correto utilizar pontilhado na educação infantil? É preciso ensinar o traçado das letras? Existe uma idade certa para começar a alfabetizar as crianças? Deve-se ou não ter letras do alfabeto expostas na sala dos Centros de Educação Infantil? foram alguns questionamentos.
Essas perguntas revelam práticas muito comuns nas instituições de educação infantil, que vêm sendo problematizadas constantemente nas últimas décadas.
Durante muito tempo, se acreditou que para as crianças aprenderem a linguagem escrita, era necessário que primeiro aprendessem as letras do alfabeto e seu traçado, para em seguida juntarem essas letras e assim aprenderem a ler e escrever. Ao saber ler e escrever, as crianças aprenderiam a interpretar os textos, para por último criticá-los e/ ou conseguir produzi-los. [1]
Nas últimas décadas, as discussões a respeito de letramento, alfabetização e cultura escrita[2] vêm procurado desconstruir essa idéia linear. Esses estudos vêm apontando que é possível que as crianças, mesmo antes de ler e escrever convencionalmente, possam ser boas produtoras de texto e façam boas reflexões sobre eles, e que é função dos educadores desde a educação infantil, proporcionar essas experiências para as crianças.

Os estudos de Emilia Ferreiro desconstroem a idéia do aprendizado das letras separadamente. Segundo ela, as crianças sabem muitas coisas sobre a linguagem escrita mesmo antes de aprender a sistematizá-la. As crianças tem hipóteses sobre essa linguagem, mas para aprender a ler e escrever convencionalmente precisam passar por um longo processo no qual a mediação do adulto leitor e escritor é fundamental, uma vez que esse aprendizado não é espontâneo. Nesse sentido, não se trata de uma idade certa e única para esse aprendizado, mas da sensibilidade e da competência do adulto para perceber quando fazer a melhor mediação (que também é realizada na educação infantil), já que para fazê-la é preciso considerar os saberes dos sujeitos que estão em aprendizagem, proporcionando a eles situações em que eles desejem conhecer mais sobre essa linguagem.
Não é tarefa fácil! Exige que o professor se aprofunde no estudo dessas hipóteses e nas diversas formas de alfabetização, para saber qual a melhor intervenção e em que momento, exige também que ele observe atentamente as crianças e seus saberes. Ouso dizer que um dos motivos do construtivismo ter sido tão criticado tenha sido a falta de aprofundamento nos estudos teóricos e na escuta das crianças pequenas, o que exige uma outra formação profissional, muito mais cara e demorada.
Ao nos referirmos aos pontilhados, é importante também retomarmos a história da educação infantil, especialmente na década de 70. Nessa época, surgiram, no caso do município de São Paulo, as EMEIS – Escolas Municipais de Educação Infantil -  com foco muito grande na preparação para a escola. Como se acreditava que para aprender a ler, era preciso saber traçar as letras corretamente, então era preciso desenvolver a coordenação motora fina das crianças, através de exercícios de prontidão, em que estas eram submetidas a exercícios mecânicos de cobrir pontilhados, fazer traços e círculos, sem o menor significado.
Ao olharmos para essas práticas que persistem tanto e que nos incomodam muito, precisamos sempre refletir: qual concepção de alfabetização que está por trás delas? Como as crianças são pensadas? Qual o papel da educação infantil na aprendizagem da linguagem escrita? Essas são perguntas fundamentais, que nos dão diretrizes para repensar o que fazemos e podemos fazer com as crianças pequenas.
 Um grande abraço desejoso de que esse espaço possa ser um fórum frutífero de discussões,
Janaína


[1] Como apontei, no texto anterior sobre o assunto, Vygotsky em 1918 já criticava a prática escolar em relação ao uso das letras, afirmando que a escola apenas ensinava as crianças a “desenhar” as letras e não a linguagem escrita.

[2] Não é a minha intenção discutir neste texto esses conceitos e suas implicações. O texto “Alfabetização e Letramento: Implicações para a educação infantil” de Luis Percival Leme de Brito, faz um histórico interessante sobre o tema.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Oficina de Fotografia para Educadores

Criação e Edição do Ensaio Fotográfico para a Documentação Pedagógica

Apresentação
Dirigida a estudantes de Pedagogia, professores de Educação Infantil e de diversas áreas do conhecimento interessados em entrar em contato com a fotografia e seus processos de construção, a oficina tem por objetivo desenvolver o olhar do educador por meio da fotografia para além do visor da câmera. Ação e reflexão sobre o ato fotográfico ditam o ritmo dos trabalhos que compreendem estudos teóricos, análises de ensaios fotográficos e passeios fotográficos. Os trabalhos de sala de aula acontecem às 5as feiras e as experiências fotográficas aos sábados.

A fotografia na documentação pedagógica
A fotografia é uma ferramenta potente para conhecermos melhor as crianças. Através da documentação pedagógica as fotos dão concretude e visibilidade aos gestos e expressam também a forma como elas compreendem o mundo. Uma outra possibilidade de uso da documentação é na formação dos educadores. Uma aula fotografada transforma-se em um bom tema para a reflexão. Para que isso ocorra, o planejar, o fotografar e o selecionar fotos exigem uma educação do olhar. Nessa oficina, as experiências fotográficas serão tratadas de forma teórica e prática, por meio das análise e discussão de vários exercícios, exemplos e obras de autores.

Objetivos
- Identificar e discutir os pontos de encontro entre a educação e a cultura visual;
- Aplicar as modalidades da gramática visual e suas articulações na prática;
- Analisar e construir narrativa dentro dos protocolos da imagem estática e sequencial;
- Orientar a elaboração de ensaios fotográficos para a documentação pedagógica.

Conteúdo
  - Características e finalidades dos registros fotográficos na educação;
  - A fotografia como narrativa de informação e reflexão;
  - Estudos teóricos, análise e planejamento de ensaios fotográficos;
   - Criação, execução e edição de ensaios fotográficos;
  - Passeios fotográficos temáticos.

Carga Horária de 30h 
7 encontros as 5as feiras e 3 aos sábados
De 18/08/2011 até 20/10/2011
Horário das 19h às 22h (5as feiras) e 09h às 12h (sábados)

Professor André Carrieri
Mestre em Linguagem e Educação pela Faculdade de Educação-USP. Professor universitário de Pedagogia (Tecnologia Educacional e Cultura Visual) e Jornalismo (Pensamento Contemporâneo e Técnicas de Documentário). Pesquisador sobre processos de aprendizagem e socialização por meio da criação e da produção de fotografias e vídeos. Consultor em Documentação Pedagógica para projetos educacionais e para formação de educadores em ONGs, secretarias de estado e escolas públicas e privadas. Diretor e roteirista de vídeos educativos. 

Valor Total de R$ 780,00
Uma matrícula de R$ 255,00 e três mensalidades de R$ 175,00

Inscrições e Informações
Programa de Extensão CEVEC - 2º Semestre 2011
Telefone: (011) 3838.5992
E-mail: ise@veracruz.edu.br ise@veracruz.edu.br>
www.veracruz.edu.br/ise <http://www.veracruz.edu.br/ise>

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Especialista defende sistema de avaliação participativo para educação infantil

Olá a todas e todos!
Segue abaixo uma entrevista dada pela pesquisadora Maria Malta Campos para o Portal Aprendiz sobre a Qualidade na Educação Infantil e a avaliação participativa. O link para o portal é: http://portal.aprendiz.uol.com.br/2011/08/01/especialista-defende-sistema-de-avaliacao-participativo-para-educacao-infantil/


Em entrevista ao Portal Aprendiz, a também professora do programa de pós-graduação em Educação da PUC-SP, presidente da ONG Ação Educativa e pesquisadora da Fundação Carlos Chagas defendeu o cumprimento das diretrizes nacionais curriculares e um sistema de avaliação participativo para a educação infantil.
“Não podemos ficar dois ou três anos esperando para constatar que as crianças aprenderam muito pouco, como acontece hoje com os sistemas centralizados de avaliação. São necessários procedimentos que incidam no processo, ao longo do percurso das crianças”, ressalta.
Portal Aprendiz - Como a senhora analisa a passagem da educação infantil dos campos da assistência social e bem-estar para o campo da educação no Brasil? Qual foi o papel da Lei de Diretrizes e Bases (LDB) nesse processo?
Maria M. Malta Campos - Na realidade, a LDB apenas legitimou na lei o que diversos grupos já preconizavam. Havia se formado um relativo consenso de que a cobertura e a qualidade do atendimento nas creches poderiam ser melhoradas com a passagem para a educação (a pré-escola sempre esteve na educação). Acho que ganhamos muita coisa – formação melhor dos professores, mais atenção para a parte pedagógica, melhor planejamento das redes, melhores condições de infraestrutura. Mas também perdemos algumas coisas: maior experiência da área de bem-estar social em trabalhar com as comunidades e as famílias, menos consideração por parte da área educacional para a necessidade de integrar melhor os serviços de saúde e educação, por exemplo.
Portal Aprendiz - A que se atribui o debate crescente sobre a educação infantil no Brasil e no mundo?
Malta - Desde pelo menos a década de 1960, periodicamente, a atenção se volta para a educação da criança pequena. O reconhecimento de que essa fase é muito importante no desenvolvimento cognitivo da criança já existe faz tempo, mas parece que periodicamente, a permanência dos problemas de fracasso escolar no ensino fundamental faz com que se apele para a educação infantil no sentido de dar melhores condições às crianças para alcançarem bons resultados nesse início do ensino fundamental.
Acho que esse reconhecimento da educação infantil é importante, mas é sempre bom lembrar que ela não existe só para preparar as crianças para o futuro: as crianças precisam viver bem sua infância, no presente, ter oportunidades de conviver com outras crianças em espaços coletivos e se desenvolver de forma integrada e as famílias precisam de apoio para educar seus filhos, pois a educação das novas gerações não é só uma responsabilidade individual das famílias, mas é também uma responsabilidade da sociedade como um todo.
Portal Aprendiz - Como a senhora avalia a aplicação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, elaboradas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), nos currículos das creches e pré-escolas brasileiras?
Malta - Bem, eu não tenho dados sistemáticos e abrangentes sobre isso, mas as informações de que disponho revelam que esse documento é pouco divulgado, pouco conhecido e pouco utilizado nas escolas e creches. Legalmente ele é mandatório, ou seja, precisa ser seguido. Acho que é um bom documento, contém diretrizes importantes, mas para ser colocado em prática, ele precisa ser traduzido, na escala municipal e nas unidades, por currículos e projetos pedagógicos que contenham orientações mais práticas e detalhadas, mas também flexíveis, de forma que os professores possam ao mesmo tempo saber onde precisam chegar com as crianças, mas possam adaptar as orientações para a realidade de suas creches e escolas e de suas crianças.
Portal Aprendiz - Qual o diagnóstico atual em relação à formação dos professores que atuam na educação infantil? A temática vem sendo abordada pelos cursos de pedagogia do país de maneira satisfatória?
Malta - Infelizmente, a forma como está organizada a formação dos professores no país deixa muito pouco espaço para as especificidades da educação infantil, em especial para a creche e as crianças menores. Como mostrou uma pesquisa coordenada pela professora Bernardete Gatti, os currículos dos cursos de pedagogia reservam uma proporção muito pequena de sua programação para a educação infantil: cerca de 5% em média. Alguns cursos têm tentado se reformular, incluindo estágios em creches – coisa que a maioria não proporciona – e incluindo conteúdos sobre a educação infantil. Mas tudo isso é ainda muito insuficiente.
Seria preciso que houvesse uma mudança na estrutura desses cursos, talvez com a introdução de módulos, permitindo que os professores se especializassem conforme o perfil de alunos com que vão trabalhar. Hoje eles se formam podendo trabalhar com: creche, pré-escola, primeiros anos do fundamental, educação de jovens e adultos, educação especial etc. É muito difícil uma única formação inicial dar conta de realidades tão diferentes. Por outro lado, o recrutamento de professores nas secretarias de educação também segue o mesmo modelo: muitos concursos não distinguem a etapa educacional em que o professor pode atuar dentro de uma rede. Os concursos de acesso e remoção não exigem, na maioria dos casos, uma adaptação ou uma formação complementar, por exemplo, de alguém que sai da educação de jovens e adultos e vai para uma creche!
Portal Aprendiz - Todas as etapas da educação brasileira possuem indicadores e uma série de avaliações para medir a qualidade do ensino.  Por que isso não ocorre com a educação infantil?
Malta - Na realidade, está começando a acontecer. Foi elaborado o documento Indicadores de Qualidade para a Educação Infantil”, numa parceria do MEC com a Ação Educativa, o UNICEF, a UNDIME e a Fundação Orsa. Atualmente está em andamento uma pesquisa de avaliação sobre o uso desse material. Ele propõe uma avaliação participativa que inclua a equipe da creche ou escola, os pais e os gestores da unidade, contendo uma relação de tópicos que devem ser avaliados. É um começo. Mas eu vejo que as equipes técnicas das secretarias também necessitam orientações e documentos que as ajudem a montar um bom sistema de supervisão pedagógica, para orientar as unidades no processo. Não podemos ficar dois ou três anos esperando para constatar que as crianças aprenderam muito pouco, como acontece hoje com os sistemas centralizados de avaliação. São necessários procedimentos que incidam no processo, ao longo do percurso das crianças. No caso da educação infantil no Brasil, tudo isso ainda precisa ser amadurecido, debatido e testado.
Portal Aprendiz - O que deveria ser levado em conta, caso o Brasil resolvesse adotar um sistema de avaliações para o ensino oferecido para essa faixa etária da população?
Malta - Acho que precisamos começar pela avaliação das condições de funcionamento das unidades em que as crianças estão matriculadas (o que inclui as práticas educativas adotadas no cotidiano). Não faz sentido avaliar as crianças individualmente, se não estão lhes sendo oferecidas mínimas condições de um desenvolvimento pleno e equilibrado. Por outro lado, seria perigoso impor, nessa faixa etária, toda a pressão que sempre acompanha as avaliações que se baseiam em testes individuais de conhecimento realizados em massa. Não acredito que esse tipo de avaliação seja apropriado para essa faixa etária de 0 a 5 anos de idade. Corremos o risco real de termos brevemente altas taxas de repetência nos últimos anos da pré-escola, como já temos, infelizmente, no início do ensino fundamental. Isso seria um enorme retrocesso.
Portal Aprendiz – A senhora concorda com o recente parecer do Conselho Nacional de Educação que orienta as creches a não oferecer atendimento durante as férias? Qual é o significado dessa medida, caso seja adotada pelos municípios, para todos os envolvidos (professores, alunos e famílias)?
Malta - Veja, nesse debate sobre as férias, seria desejável considerar as necessidades das diversas partes envolvidas: pais, crianças, professores, administradores. E acontece que muitas vezes essas necessidades são conflitantes. Se as normas de funcionamento das unidades permitissem maior autonomia e flexibilidade, diferentes encaminhamentos seriam possíveis: a maioria das crianças pode ficar em casa com suas famílias durante um período? Ótimo, as famílias – irmãos, pais, amigos – precisam conviver com as crianças pequenas mais intensamente de vez em quando. Um pequeno grupo de crianças realmente não conta com essa oportunidade – pertencem a famílias uniparentais, seus pais não tem direito a férias, ou enfrentam problemas de saúde?  Então as creches podem se organizar para atender esse pequeno grupo de alguma maneira: realizando um rodízio de férias com as professoras, centralizando um grupo maior de crianças em alguma unidade próxima, enquanto as demais realizam manutenção dos prédios ou alguma reforma. Mas como as redes de escolas e creches em nosso país costumam ser regidas por regras muito rígidas e iguais para todos, caímos nessa situação de ou ter férias para todos ou não ter para ninguém.
Espero que no futuro, as redes possam criar mecanismos para acolher melhor as necessidades das famílias, que os bairros de moradia contem com outros recursos para receber as crianças nas férias (parques, clubes, centros de lazer) e, por seu lado, que a maioria das famílias tenha melhores condições de vida, e em seus empregos, organizando-se para conviver com suas crianças durante as férias escolares. Nesse particular, é bom lembrar que as professoras também são mães e também precisam conviver com seus filhos em algum momento do ano!
Portal Aprendiz - O que seria uma abordagem “ideal” na educação de crianças de 0 a 5 anos? Existe um modelo a ser espelhado pelo Brasil?
Malta - Vivemos numa sociedade plural e muito diversa, então acho difícil pensar em um só modelo ou ideal. Qualquer que seja o modelo, ele precisa respeitar os princípios básicos e os valores consagrados em nossa Constituição: liberdade, responsabilidade social, tolerância, justiça, separação entre estado e religião etc. Não podemos ter escolas que preguem o ódio a outros grupos sociais ou a intolerância religiosa. Por outro lado, temos uma lei que rege a educação nacional, a LDB. Temos documentos nacionais de orientação curricular que precisam ser levados em conta. Dentro dessas referências, existe uma liberdade na escolha de métodos, de percursos, de práticas. Mas também é preciso considerar que a ciência já avançou muito no conhecimento sobre o desenvolvimento cognitivo, afetivo, social da criança pequena. Não podemos partir do zero. Levando tudo isso em consideração, existem modelos ou linhas de trabalho pedagógico diferentes: há aqueles que seguem uma linha construtivista, há os que se inspiram na experiência das escolas do norte da Itália, há os que se apoiam em currículos como o High Scope, há os que seguem a pedagogia Waldorf, ou a filosofia de Freinet, os caminhos são múltiplos.
O que é preciso é, que qualquer que seja o caminho, os direitos humanos básicos das crianças e de suas famílias sejam respeitados e o direito da criança se desenvolver plenamente e aprender seja garantido.
Portal Aprendiz - Qual o papel da família nessa etapa educacional dos filhos?
Malta - Quanto menor a criança, mais dependente do adulto ela é. A família e a creche precisam trabalhar em conjunto, mantendo uma boa comunicação no processo, para garantir proteção e apoio à criança. Os pais precisam conhecer o trabalho que é realizado na creche e a creche precisa conhecer melhor as famílias. Infelizmente nem sempre as coisas são assim. Há muito preconceito, entre os professores, em relação à família pobre e há muita desconfiança das famílias em relação a uma instituição que não é bem conhecida delas. Qualquer machucadinho que a criança tenha – o que é perfeitamente normal na infância – leva a conflitos na porta da escola ou da creche. Ainda precisamos melhorar muito essa relação.
Portal Aprendiz – O que a senhora destacaria da recente pesquisa realizada por sua equipe em 150 instituições de educação infantil de seis capitais brasileiras?
Malta - Bem, essa pesquisa levantou uma quantidade de informações muito grande e seria impraticável resumir tudo aqui. Mas o que mais marcou foi a constatação de que, na média, as crianças vivem um cotidiano muito carente de estímulos e de atividades interessantes, nas salas de creche e pré-escola onde passam longas horas por dia. As rotinas de alimentação, sono e as transições tomam muito tempo, há longos períodos de espera e ociosidade e são desenvolvidas atividades muito pouco variadas com as crianças. Por exemplo, quase não são contempladas experiências que cubram conhecimentos sobre a natureza, sobre a diversidade cultural, sobre música; existem poucas oportunidades de jogo simbólico, de brincadeiras livres, de atividades em pequenos grupos; as crianças em idade de creche quase não têm contato com livrinhos infantis de figuras e de estórias; cuidados básicos de higiene e de saúde, como lavar as mãos, não são praticados. Encontramos instituições muito boas, mas na média os resultados não foram bons, o que indica que há muito a ser feito para que a qualidade em geral seja aprimorada.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Retratos da infância - Revista Educação


Olá a todas e todos!
A Revista Educação desse mês publicou um artigo sobre a situação da infância na América Latina. Com o titulo, Retratos da Infância, a reportagem aponta os desafios da Educação Infantil na região.
Segundo a revista, a Educação infantil ganhou impulso na América Latina, através de pesquisas que apontaram os efeitos positivos da educação das crianças nos primeiros anos de vida, a entrada de mulheres no mercado de trabalho e os acordos internacionais como o Marco de Ação Regional que tem entre suas metas, assegurar que até 2015 as crianças tenham acesso a educação de qualidade.
Algumas conquistas aconteceram, segundo o artigo, como a quase universalização do atendimento de crianças de 4 e 5 anos. Mas para os menores, de 0 a 3 anos, ainda há muito o que fazer, ainda mais porque a maioria dos países desconsidera que essa seja uma etapa de atendimento educacional.
No caso das crianças bem pequenas (0 a 3 anos), em geral, esse atendimento é assistencialista, voltado a uma lógica baseada na estrutura familiar.
Há também uma tendência a obrigatoriedade na educação das crianças a partir dos 5 anos de idade (No caso brasileiro já foi aprovado a partir dos 4 anos), o que impulsiona investimentos para a cobertura do atendimento dessa faixa etária e desinveste nas demais.
Constatou-se também que, no caso, das crianças de 4 a 5 anos, a referência de atendimento é preparatório para a alfabetização, desconsiderando o direito a infância.
Há uma crise de identidade no que se refere a educação infantil na região, que pode ser verificado pelas nomenclaturas utilizadas e, principalmente pelas políticas públicas destinadas a infância. Com alguns países, por exemplo, optando pelo apoio familiar, com a instituicionalização do que no Brasil foi denominado “mães crecheiras”, mulheres que abrigam crianças em suas casas.
A revista traz também que as lógicas dos investimento na primeira infância são: o investimento com “retorno econômico” e o distanciamento entre a legislação e o oferecimento de uma educação com qualidade (principalmente no que se refere ao atendimento das populações rurais).
O próprio termo “qualidade” não é, em muitos países, definido de forma explícita.
Na reportagem há dados detalhados, com apresentação de vários relatórios que explicam a situação do atendimento na educação infantil nos diferentes países da America Latina.
O caso brasileiro é reconhecido como um bom exemplo de educação infantil na região, uma vez que a legislação é uma das mais avançadas, principalmente no que se refere ao reconhecimento desse nível educativo como primeira etapa da educação básica e o desenvolvimento das possibilidades e competências das crianças a partir de seus modos de aprendizagem. Porém, se reconhece que oferecer acesso à educação de qualidade ainda é nosso maior desafio. Na reportagem, há detalhes sobre os marcos legais da nossa legislação, as soluções encontradas pelos municípios para o atendimento da demanda (como as políticas de conveniamento) e o descompasso na formação dos professores, que muitas vezes não são formados com a especificidade do trabalho com a educação infantil.
Em tempo: a revista traz também informações sobre o piso nacional dos professores, lei que foi confirmada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), cujo valor é de R$1.187,14 para 40 horas semanais. Mas que ainda não é pago em boa parte dos municípios, que alegam falta de recursos.

Abraço!