Olá a todos e todas!
Como promessa é dívida, aqui estão algumas reflexões sobre o papel da alfabetização na Educação Infantil.
Esse tem sido um tema de bastante preocupação entre os educadores da infância que lutam pelos direitos das crianças de viverem plenamente sua infância.
Tenho recebido muitos depoimentos de alunas e alunos sobre como as rotinas na educação infantil tem se centrado na decodificação do código escrito, submetendo algumas vezes até duas horas do tempo parcial das crianças em atividades de cópia e “desenho de letras”, inclusive crianças bem pequenas de três anos. Muitas apostilas vem com encartes que sugerem a cópia das letras para que as crianças aprendam a grafá-las. Mas o que está por trás dessa prática? Acelar a aprendizagem das crianças na esperança de uma melhor formação para o futuro profissional delas?
No Parecer das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil de 2009 (lei de caráter normativo da área), está explicita essa constatação de práticas:
Contudo, há que se apontar que essa temática não está sendo muitas vezes adequadamente compreendida e trabalhada na educação infantil. O que se pode dizer é que o trabalho com a língua escrita com crianças pequenas não pode decididamente ser uma pratica desprovida de sentido e centrada na decodificação do escrito. (pág. 15)
Em 1918, no texto: “A pré-história da linguagem escrita”, Vygotski afirmou que a escrita tinha um papel estreito na escola em relação ao papel que ela desempenhava no desenvolvimento cultural da criança, ou seja, ensinava-se a desenhar letras e contar palavras com elas, mas não se ensinava a linguagem escrita. Já apontava o autor que o ensinamento da linguagem escrita dependia de um tratamento artificial.
Quase um século depois, essa ainda pode ser considerada uma denúncia contemporânea. Mas afinal, se não é esse o papel da educação infantil na alfabetização das crianças pequenas, qual é o nosso desafio?
A linguagem escrita é objeto de interesse pelas crianças, elas se interessam por ela mesmo antes de serem apresentadas por suas professoras, já que vivemos em uma sociedade de cultura escrita. Mas, o nosso trabalho não é o ensino mecânico das letras.
O professor Luiz Percival Leme de Brito nos ajuda muito nessa reflexão. Diz ele que, na educação infantil, o nosso desafio é:
(...) ao invés de se preocupar em ensinar letras, numa perspectiva redutora de alfabetização, construir bases para que as crianças possas participar criticamente da cultura escrita, conviver com essa organização do discurso escrito e experimentar de diferentes formas os modos de pensar escrito.
Antecipar o ensino de letras sem trazer o debate da cultura escrita para o cotidiano é desrespeitar o tempo da infância e sustentar uma educação tecnicista. (pág. 16)
Ainda nas palavras do autor:
Na Educação Infantil, ler com os ouvidos e escrever com a boca (situação em que a educadora se põe na função de enunciadora ou de escriba) é mais fundamental do que ler com os olhos e escrever com as próprias mãos. Ao ler com os ouvidos, a criança não apenas se experimenta na interlocução com o discursos escrito organizado, como vai compreendendo as modulações de voz que se anunciam num texto escrito. Ela aprende a voz escrita, aprende a sintaxe escrita, aprende as palavras escritas. (pág. 18)
O desafio da Educação Infantil não é de ensinar a desenhar e juntar letras, e sim o de oferecer condições para que as crianças possam se desenvolver como pessoas plenas e de direito e, dessa maneira poder participar criticamente da sociedade de cultura escrita. (pág. 20).
Quanto a esse último parágrafo novamente retomo uma reflexão que venho fazendo ao longo das postagens desse blog: afinal a educação não tem como finalidade a formação de cidadãos críticos? Ou nosso objetivo é submeter as crianças a propostas mecânicas e sem sentido, para que elas aprendam mais do que desenhar letras, mas também ficarem sentadas, quietas, esquecendo que são crianças em uma atividade que as desrespeitam e as desumanizam?
Para finalizar, uma afirmação de Maria Carmem Barbosa no documento: “Práticas Cotidianas na educação Infantil”:
O tempo da infância esta cada vez menor nas sociedades contemporâneas. Grande parte da escolarização posterior aos seis anos vai estar centrada nos conhecimentos sistematizados pelas disciplinas escolares. Centrar a escolarização das crianças pequenas no ingresso nas praticas sociais e culturais linguageiras da nossa sociedade significa dar espaço para as crianças aprenderem com o corpo, em situações interativas em um contexto de significação. (pág. 86).
Obs: Para quem quiser ler na íntegra os textos citados, aí vão as dicas e referências: O Parecer das DCNs de 2009 e o documento: “Práticas Cotidianas na Educação Infantil” já estão linkados no blog, em postagens anteriores. É só baixar.
O texto de Luiz Percival Leme de Brito, se intitula: Letramento e Alfabetização: Implicações para a Educação Infantil e está no livro: O Mundo da Escrita no Universo da Pequena Infância. Coleção Polêmicas do nosso tempo, organizado por Ana Lúcia Goulart de Faria e Suely Amaral Mello. Ed. Autores Associados.
Já o Texto de Vygotski: ”A pré-história da linguagem escrita”, está contido no livro: A Formação Social da Mente”, publicado pela Editora Martins Fontes.