quarta-feira, 29 de agosto de 2012

28. Simpósio Mundial da OMEP - O Brincar nos tempos e espaços da Educação Infantil - Maria Carmen Barbosa


Oi Pessoal!

Divulgo hoje a palestra da Prof. Maria Carmen Barbosa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre o brincar no 28. Simpósio Internacional da OMEP.
Durante sua fala, Maria Carmen nos incita o tempo todo a pensar profundamente sobre o brincar e o nosso papel como educadoras e educadores da infância.
Sua fala se iniciou com uma pergunta: É preciso brincar na escola de Educação Infantil?
Para responder, a pesquisadora e professora dividiu sua fala em quatro pontos. São eles: A- Brincar é a capacidade de inventar mundo; B- brincar não é ato natural, mas uma aprendizagem cultural; C- Para brincar é preciso um lugar para fazer brincadeiras, tempo  para inventá-la, vivenciá-la, materiais "ricos" e, de preferência muitos companheiros; D- Brincar não se contrapõe a aprender, mas é relacionar-se com o mundo do conhecimento e aprender de modo significativo.

A - Brincar é a capacidade de inventar mundo
Brincar está presente na nossa vida diária. Passamos oito horas dormindo e sonhando. Ao longo do tempo acordado temos momentos de devaneios, fantasiamos, inventamos. Imaginar e fantasiar faz parte de ser humano. A possibilidade de desenvolvimento dessa capacidade é afetada pelo contexto e a cultura de cada um. Imaginar e fantasiar são formações mentais que gera capacidades em seres humanos. Capacidade de criação humana.
Através das brincadeiras as pessoas iniciam a construção de seus mundos imaginários.

B- Brincar não é ato natural, mas uma aprendizagem cultural
Todos nascemos com capacidade de interagir com o mundo que nos circunda. Temos capacidades de interação. Seres humanos são capazes de inventar, criar brincadeiras, criar regras. Mas a brincadeira é uma construção sócio- histórica, que precisa ser transmitida. Brincadeiras derivam muitas formas de lazer, recreação.
Durante muito tempo crianças e adultos brincaram juntos. Brincadeiras mudam de nome nosso lazer, coisas de gostamos são também fontes de prazer e fazer compartilhado. Brincadeiras persistem, as novelas são ligadas ao faz de conta. Temos que pensar sobre isso. Transformamos possibilidade biológica em realidade cultural.
Para as crianças pequenos atos dão inicio na formação do mundo simbólico. Elas internalizam aspirações do mundo em que vivem e fazem suas próprias relações. Ao brincar e imaginar constroem novos mundos e participam da cultura.
Mães e professoras introduzem elementos culturais. Brinquedos estão inseridos na cultura, adultos apresentam para as crianças seus primeiros brinquedos. Adultos apresentem aquilo que consideram mais significativo. Crianças imitam os modos de usar, mas a partir de suas combinações inventam novas brincadeiras.
Ao escolhermos formas, cores, tipos de brinquedo, não oferecemos apenas um objeto, mas sim um discurso simbólico. Esses brinquedos trazem narrativas. O que queremos oferecer as nossas crianças? Pergunta feita pelos adultos para escolher o quer disponibilizar as crianças.

C- Para brincar é preciso um lugar para fazer brincadeiras, tempo  para inventá-la, vivenciá-la, materiais "ricos" e, de preferência muitos companheiros;
Durante muito tempo, o tempo e o espaço para brincadeira foi assegurado para as crianças. Vida na cidade tem dificuldade de garantir espaços para o brincar das crianças. Francesco Tonucci aponta  que os espaços da cidade tem deixado as crianças solitárias. Há um empobrecimento da experiência da brincadeira. A experiência do brincar dos adultos precisam nos fazer resistir a isso. Criar espaços para as crianças se encontrarem e brincarem. As escolas de Educação Infantil precisam ampliar e atualizar suas funções educativas. Educação Infantil é lugar onde crianças de diferentes idades se encontram e tem tempo e espaço para brincar.
Diretrizes Curriculares Nacionais para a EI de 2009 reiteram a infância como período importante do desenvolvimento humano: aprender a conviver, a brincar, inventar e ser curioso, entre outros. Elementos significativos para nossa formação. Revelam uma mudança radical em relação a concepção de escola instruída pela sociedade no século XIX. Isso remete a uma mudança grande nos tempos, espaços das instituições, tornando os espaços que desafiem as crianças para o brincar.
Cozinha pode também ser um espaço para o brincar, parque não é para recreação, mas um espaço de brincadeira.
É preciso construir espaços de brincadeira, onde crianças possam ter contato com livros, experiências, etc. Isso exige uma outra forma de gestão da EI. Precisamos escutar mais os clássicos da EI, que foram esquecidos nos momentos em que as creches viraram escola. Que esses espaços sejam mais ricos, incitem a fantasia.
Crianças de 0 a 6 anos não precisam trabalhar disciplinarmente. Os professores precisam saber disso, como as crianças constroem números, sabem sobre a natureza, etc... Esse patrimônio chega, mas não precisa chegar como disciplina, como aula de. Com materiais ricos, natureza, boa biblioteca, trabalho com música, esse patrimônio esta garantido.
Mas alem de espaços e objetos, é preciso fundamentalmente tempo para brincar. Ter meia hora de parque por dia ou deixar as crianças sozinhas, sem ofertas de brincadeiras, é garantir o direito a brincadeira?
É preciso tempo para brincar, um adulto que compartilhe, que saiba sobre o brincar. Professores são fundamentais para garantir uma cultura de brincar: apresentam novas brincadeiras, complexificam, outras vezes observam e vêem como as crianças prosseguem em seu brincar.
Cada criança pode apresentar na brincadeira seu modo singular de ver o mundo, percebe-se através das brincadeiras a diversidade de classes, gêneros, etc. Escola que favorece a brincadeira é inclusiva.

D- Brincar não se contrapõe a aprender, mas é relacionar-se com o mundo do conhecimento e aprender de modo significativo.
O pensamento não é apenas individual. Nossa capacidade de pensar tem relação com co-construções. Hoje na ciência pensamos em grupos de pesquisa, construção em dialogo. Brincar é um modo de aprender coletivo e compartilhado. Aquilo que fica é aquilo que socialmente e emocionalmente tem valor para nós. Brincar forma desconstruirmos a nos mesmos como seres humanos. Terapias tem usado a brincadeira como conexão com as crianças.
Brincadeiras mobilizam emoção, corpo, pensamento, tudo ao mesmo tempo. Crianças tomam iniciativas, criam narrativas, brincadeiras. Brincar cria perguntas e onde há perguntas há espaço para a construção do pensamento.
Difícil convencer as famílias que a brincadeira é importante. Nossa sociedade preza muito a informação.

Boaventura Souza santos, sociólogo português aponta: “o neoliberalismo é, antes de tudo, uma cultura de medo, de sofrimento e de morte para as grandes maiorias, se não se combater com eficácia, se não se lhe opuser uma cultura de esperança, de felicidade e de vida”.

Escola não pode reduzir a vida das crianças a realidade como ela é. O brincar e as narrativas são instrumentos políticos, são eles que possibilitam ao outro a gentileza, a delicadeza inegociável da vida. Precisamos viabilizar na escola o direito de viver, explorar, conhecer e transformar o mundo. Instituição da Educação Infantil com alegria, esperança e vida para todos.

Há a disposição natural dos seres humanos para brincar, mas se deixarmos crianças sozinhas espontaneamente, as brincadeiras serão empobrecidas. Nesse sentido, professores precisam ampliar repertórios. Nossa função é de ampliar mundos, enriquecer as brincadeiras. Brincadeiras é compreendida como deixar as crianças livres, mas organizar o currículo focado na brincadeira exige muito estudo e aprofundamento.

sábado, 18 de agosto de 2012

Dia Nacional da Educação Infantil

   

Olá Pessoal!

       Em abril deste ano a presidente Dilma Roussef sancionou a lei de que institui a data de 25 de agosto como o dia Nacional da Educação Infantil. Nesse ano será a primeira vez que comemoraremos a data.
      A educação infantil tem muitos desafios, entre eles a garantia do acesso às crianças e a sua valorização.     Nesse sentido, o Fórum Municipal de Educação Infantil do Município de São Paulo resolveu criar uma campanha no facebook. 
     Para participar basta alterar sua foto de perfil para o logo da campanha entre os dias 18 e 25 de agosto. Assim mostraremos a todos a importância de comemorar esse dia. Mas é preciso lembrar, que além de comemorá-lo pode ser uma excelente oportunidade de discutirmos mais sobre sua importância e o seu papel na educação das crianças pequenas.
    Abraço!

Link para o facebook do Fórum Municipal de Educação Infantil de São Paulo: http://www.facebook.com/pages/F%C3%B3rum-Municipal-de-Educa%C3%A7%C3%A3o-Infantil-de-S%C3%A3o-Paulo/274063332706748

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

28o. Simpósio da OMEP. O Brincar na Educação Infantil. Prof. Tizuko Kishimoto


Olá a todas e todos!
Hoje compartilho mais uma palestra do 28. Simpósio Mundial da OMEP. Dessa vez a fala foi da Prof. Tizuko Morchida Kishimoto, da Faculdade de Educação da USP e que é pesquisadora da Rede internacional de pesquisadores em Educação Infantil
A professora Tizuko inicia sua fala nos questionando: Será que os brinquedos de hoje são totalmente diferentes do passado? Será que escutamos as crianças? Para ajudar nessa reflexão cita Stephan Klein que aponta que escolas de Educação Infantil estão simplesmente expulsando jogos eletrônicos, bonecos de super heróis, mas não ajudam as crianças a fazer uma critica a esses brinquedos. A boneca Barbie, por exemplo,  é tão atrativa porque acompanha os processos de vida do cotidiano.
Tizuko apresenta o quadro “Jogos infantis” de Peter Brughel e nos pergunta: será que as brincadeiras de hoje são tão diferentes? 

Qual o significado do brincar?
Brincar é imaginação e pensamento, tomada de decisão, regras, incerteza, não tem conseqüência, é um ato social e cultural. A própria criança entra no imaginário e toma decisões. Às vezes a criança está apenas segurando uma boneca, outras vezes ela é a mãe da boneca. Alguns autores usam o termo futilidade para se referir ao brincar, Tizuko prefere o termo sem conseqüência.
Formato lúdico é diferente do formato educativo. Para que o educativo possa aproveitar o espaço lúdico é fundamental que os materiais sejam adequados e de qualidade. Brincar sem qualidade é espontaneista. É preciso respeitar os aspectos do brincar, mas respeitar espaços, materiais e interações.

O brincar esta nas culturas da infância:
- cultura construída pelos adultos - livros, roupas e alimentos
- cultura construídas por adultos e crianças - brinquedos
- cultura construídas pelas crianças - brincadeiras

Os criadores de brinquedos a acompanham as crianças, como brincam e o que vêem. Brinquedos industriais tem interesses das crianças também, além dos interesses dos pais e dos próprios fabricantes

O brincar tem diferentes dimensões:
- Dimensão local e global. Brincadeira muitas vezes é a mesma, mas o que define o conteúdo é o local. Há um hibridismo de culturas: Bonecos de ação sempre existiram e são constantemente adaptados. Cultura da criança é que sempre faz uma recriação do brincar.
- Diversidade: individual, social, cultural, lúdica, étnica, familiar. Cultura material -  Diversidade de materiais (formas, cores, texturas) e de usos dos brinquedos.
- Sustentabilidade. Educação para sustentabilidade é diferente da educação ambiental. A primeira trata de vários sistemas ambiental, social, econômico e a relação entre eles. O playground, por exemplo, é preciso ter nele grama, terra, água, horta, alimentos para pássaros; brincadeiras. Mas também é educação para sustentabilidade quando o imaginário da criança se remetem a outros contextos, quando as crianças assumem diferentes papeis a partir dos contos de diferentes povos para que elas tenham outras experiências. Assim como as trocas e reciclagem de brinquedos, a EI precisa desenvolver projetos para que as crianças assumam valores.

Brincar é diferente mas também é igual. Brincadeiras de ontem ainda circulam de forma reinventada. Brincar no passado e brincar hoje implica pensar que mantemos formas antigas em novos meios. Precisamos deixar de lado visões nostálgicas e entender essas brincadeiras. Esse é o papel da escola. Estamos deixando o novo de lado e isso significa que estamos deixando as crianças sem os códigos da infância do mundo atual. Nesse sentido não se trata de afirmar a morte da infância, porque a infância e o brincar enquanto categoria social sempre vão existir, mas é preciso repensar como trazemos o brincar para a EI.


Aproveito para indicar a vocês para aprofundamento o texto da Prof. Tizko Kishimoto, intitulado: "A cultura lúdica como parte da cultura da infância", disponível no link: http://www.labrimp.fe.usp.br/index.php?action=artigo&id=5

sábado, 4 de agosto de 2012

Conferência Manuel Sarmento - 28o. Simpósio Mundial da OMEP


Olá a todas e todos!
Reproduzo abaixo a conferência de Manuel Sarmento no 28o. Simpósio Mundial da OMEP. Sarmento é professor da Universidade do Minho, em Portugal e uma das principais referências na da Sociologia da Infância.

Primeira Infância no Século XXI: direito das crianças de viver, brincar, explorar e conhecer o mundo
O autor iniciou sua fala tratando da Convenção dos Direitos das Crianças (Aprovada na Assembléia Geral das Nações Unidas em 1989) que representa no plano jurídico de uma nova concepção social da infância, uma outra idéia da criança que se impõe a idéia voltada pelo principio da negatividade. Criança definida não pelo que é, mas pelo que não poderia fazer: não votar, não casar, não trabalhar, não beber. Com a convenção proclama-se a idéia de criança capaz, competente e participativa. Idéia de criança como cidadã. Cidadania da infância que as crianças são protagonistas, sujeitos ativos de direitos. Três PS:  Proteção contra violência, maus tratos, exploração; Provisão - Estados se obrigam a garantir as crianças as condições fundamentais de vida e dignidade, Provisao é exigência, garantia do Estado; Participação que aparece pela primeira vez em um documento oficial: criança tem o direito de participar ativamente em tudo que lhe diz respeito ( ex: ouvir a criança em processos judiciais), Criança deve ser informada e ter acesso ao conhecimento para participar ativamente.
Direitos das crianças constituem base de trabalho fundamental para muitos países do mundo. Dois países não assinaram: Somália e EUA. Trata-se de um dos documentos do mundo mais reconhecidos e com maior impacto mundial. Faz sentido ter um ponto de vista critico sobre ele, mas é um ponto de partida para ser aprofundado e ampliado.
Mas há contradição entre a lei escrita e a lei na pratica. Na prática ela não é aplicada em muito locais. Diversidade cultural precisa ser defendia, sem cair no relativismo que contrapõe aos direitos das crianças.
Estado de direitos no mundo são contraditórios. Direitos que se colocam em uma sociedade contraditória . Paradoxo: nunca se foi feito uma tão vasta proclamação dos direitos das crianças e nunca houve uma restrição social tão grande às crianças, sobretudo em países pobres, nunca como hoje houve tanto controle simbólico sobre as crianças, nunca como hoje crianças ficaram tanto em Instituições e em instituições que estão vivendo em uma crise.

Características da sociedade contemporânea: Vivemos uma 2a. Modernidade marcada pela globalização (política, econômica e cultural) e o individualismo institucionalizado. Beck Gemshem 2003.
A infância proclamada nos direitos da convenção vive no interior de uma regulação social, que tem uma administração simbólica da infância que é construída nessa sociedade de forma avançada do capitalismo. Essa regulação se exprime em regras formais e não formais (simbólicas, através de crenças, mas que fundam os laços sociais).
GLOBALIZACAO
Globalização coloca a criança dentro de uma universalização. Mesma vestimenta das crianças em todos os países do mundo -mercado global de produtos para a infância. Mas a difusão da industria cultural não apenas de produtos, mas em serviços: cursos de ferias, cursos de inglês,etc.

Principio de individualização- valor e principio de autonomia. Autonomia é um conceito ambivalente e precisa ser discutido nas várias dimensões. Uma delas é a idéia de que a criança é tão competente e capaz que ela pode ter suas próprias regras (isso vem do sentido etimológico da palavra). Essa idéia de autonomia tem conseqüências na idéia de participação.

Há a idéia de criança global. Difusão universal de Normatividade inerente ao "melhor interesse da criança". Norma ocidental moderna da infância. Idéia de que toda a criança tem o direito de viver em uma família e de freqüentar a escola, e garantir o acesso ao mundo social pela escola. Globalização tem promovido como nunca no passado, um aumento das desigualdades sociais nas crianças, que é expressão das desigualdades sociais no mundo inteiro. Se a situação da infância melhorou globalmente não significa que todas as crianças tiveram suas condições de vida melhoradas em todos os países e da mesma maneira. Aumento das desigualdades tem como conseqüência o desrespeito aos direitos das crianças.
Estamos vivendo em uma sociedade de risco marcada: pelo desemprego parental, emprego bem escasso, em alguns países da Europa, como Portugal e Espanha há taxas recordes de desemprego e o eesemprego parental produz uma serie de conseqüências as crianças e cria riscos múltiplos a elas; pelos riscos relacionados ao meio ambientes - terremotos, aquecimento, nunca as crianças tiveram tantas doenças alérgicas; pelos riscos decorrentes dos acidentes rodoviários e a motorização dos transportes; pelos riscos decorrentes de guerras e conflitos no mundo.

INDIVIDUALIZACAO
Há a idéia de que a escola deve inserir o indivíduo na cultura e socializar, escola deve ensinar que a criança deve ser capaz de fazer avançar e emergir suas competências individuais, ser capaz de ser competitiva e ambiciosa. Valorização da idéia da performance individual. Cada homem e cada mulher tem uma missão individual, como se a sociedade fosse uma associação livre. Por individualismo entendemos  desvalorização do coletivo. O ideal neoliberal é de que a sociedade se auto regula pela concorrência, mas a sociedade não se autoregula, ela estratifica. Ênfase no privado, fragiliza laços sociais. Neste repertorio de socialização para o individualismo cabem normas de conduta, princípios de referência, critérios de performances. Essa idéia de autoregulação e autonomia cria grandes desigualdades sociais. Pois, a idéia de autonomia só faz sentido quando conjugada com o principio da solidariedade.

Hoje a imagem da criança é de um ser humano pleno, hoje a criança é complexa e densa e exprime claramente a sociedade extraordinariamente complexa. E é essa criança complexa e densa que a Educação Infantil tem que conjugar. Para isso, as crianças precisam ser ouvidas.
Uma criança disse: "Os adultos devem ouvir as crianças, porque elas também os ouvem", Os adultos devem ouvir as crianças porque elas são pessoas e tem coisas interessantes a dizer. Ouvir as crianças no interior das instituições é uma condição para garantia dos direitos e uma condição para um dialogo justo, de partilha o poder, Dialogo entre gerações. Isso exige que ultrapassemos os mecanismos formais dos adultos, como assembléias, parlamentos. Precisamos ouvir o que as crianças dizem, como dizem, por suas vozes, gestos, olhares, silêncios. Expressão corporal das crianças deve ser promovida, valorizada e interpretada pelos adultos. Precisamos criar formas imaginativas de escuta das crianças fora dos canais habituais.
A audição da voz é condição da garantia da proteção às crianças. Proteger vivamente as crianças é ir contra o silêncio, que é abusivo. Perceber que a  criança é um todo marcada pela vida e seu contexto. Trabalho de escuta, mas também de reestruturação institucionais. Instituições das crianças precisam ser vistas como instituições marcadas pelas crianças. Precisamos nos interrogar: o que a crianças fazem na instituição? O tamanho do mobiliário, as cores das paredes, as relações humanas, as prioridades, os tempos, as organizações hierárquicas seriam as mesmas se não tivesse crianças? Como percebo as vozes das crianças para avaliar as instituições? Como as coisas que tenho na instituição afetam as crianças? Instituições para crianças precisam ser pensadas como instituições para crianças e não para adultos.
Criação de um espaço e tempo democrático, principio de respeito mútuo entre crianças e adultos. Conceito de cidadania intima, ser cidadão não se esgota na relação com o espaço publico, mas também se dá no espaço privado . Direitos da cidadania se exprimem nas relações entre crianças e adultos.
Mudança paradigmática, que não é isenta de ambigüidade, mas que exige políticas e vontade coletiva, e um grande trabalho pedagógico.


Educação infantil cresceu a partir de três perspectivas, que ocorrem anacronicamente, não necessariamente cronológica: 1. Tradição assistencialista, filantrópica e caritativa: creche, pretensão de guarda está na gênese de muitas instituições para crianças; 2. Inspiração desenvolvimentista e escola novistas: jardins da infância; 3. A pretensão instrucional: a pré-escola (escolarização precoce). Portanto, é um espaço tenso entre diferentes formas de pensá-la.

A Educação Infantil concebida: 
1 Como oficio de criança- necessidade do lúdico, brincar como ofício do mundo;
2. EI globalizada e o regresso da educação compensatória. Capitalismo entende educação infantil como mercado, emergência de empresas que exerce o controle da EI, como apostilas, formações, dispositivas de avaliação externa, regulação, disputa no mercado de concorrência que se assumem como mais valias distintivas  dentro do mercado educacional;
3. Como cidadã e democrática. Sociedade não pode ser pensada como mercado, assim como EI. Educação Infantil como defesa dos direitos da crianças, educar e cuidar em osmose permanente. Educação Infantili verdadeiramente orientada para a promoção dos direitos.

Educação Infantil tem tensões permanentes  vivida por educadores: individualização x socialização; autonomia e autoridade; competência e aprendizagem; Cultura da escola e culturas infanto juvenis; EI como lugar de disciplina e de liberdade.
Tensões precisam ser vividas, não podem ser afastadas. Elas colocam dilemas e são as formas como eles serão enfrentados que vai garantir a educação democrática. E para organizar uma educação democrática, é preciso: 1.organizar EI como campo de oportunidade: descoberta cotidiana feita a partir de princípios, privilegia intervenção dos educadores atentos as crianças e a suas falas, que parte das crianças e de suas práticas culturais; 2. EI como lugar de encontro de culturas. Lugar em que as culturas se entrelaçam, crianças devem ser interessadas pelas linguagens dos outros; 3. EI que é também um mundo social, nunca é demasiadamente tarde para fazer uma criança feliz. Criança não é apenas entendida e interpretada como ser aprendente.; 4. Organizar a escola como polis, uma cidade onde tem lugar a afirmação da identidade social. Educação é afirmação de uma cidadania social, cognitiva, social.

Conclusões: nessa sociedade complexa, a educação infantil é chamada para trabalhar com questões complexas. Partir das  crianças é um bom caminho, garantir a resistência reforçando os vínculos. capacidade que as crianças tem de transformar os objetos, encontrar a novidade naquilo que se repetem continuamente.