quarta-feira, 17 de maio de 2017

Eventos sobre Educação Infantil

Olá a todas e todos,

Esse semestre está recheado de eventos sobre a Educação Infantil. 

Aqui a lista com alguns deles, com links para inscrições.

Eventos no Estado de São Paulo





Tema: Educar para a criatividade - a dimensão estética nos processos educativos, conferência com a atelierista italiana Mara Davoli.

Local: Auditório do MAM - Museu de Arte Moderna de São Paulo.

Data: 24/06

Link para maiores informações e inscrições: 
 https://www.facebook.com/events/214931415662888/?acontext=%7B%22action_history%22%3A%22[%7B%5C%22surface%5C%22%3A%5C%22messaging%5C%22%2C%5C%22mechanism%5C%22%3A%5C%22attachment%5C%22%2C%5C%22extra_data%5C%22%3A%7B%7D%7D]%22%7D






Tema: 20 Seminário de Educação Infantil - A natureza das Infâncias

Local: Prisma Centro de Estudos - Av. Srg. Geraldo Sant'Ana, 901 - Jardim Taquaral 

Datas: 19 e 20 de maio

Link para maiores informações e inscrições: https://prismace.wordpress.com/




Tema: A inspiração Pikleriana: a pedagogia dos detalhes na relação e nos cuidados com os bebês e as crianças

Local: Teatro Caritas - Rua Pedro Paulino dos Santos, 157. São Mateus São Paulo

Data: 23/05

Link para maiores informações e inscrições: 
https://www.facebook.com/Tessituras-Centro-de-Forma%C3%A7%C3%A3o-e-Pesquisa-1748956915326556/?pnref=story.unseen-section







Tema: 5 Seminário Diferenças e Resistências

Local: Teatro Florestan Fernandes - Universidade Federal de São Carlos - São Carlos

Datas: 19 e 20 de junho de 2017

Link para maiores informações e inscrições: http://www.ppgs.ufscar.br/5o-seminario-diferencas-e-resistencias/




Eventos em outros Estados do Brasil

III SLBEI - SEMINÁRIO LUSO-BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO INFANTIL

Tema: Políticas, Direitos e Pedagogias das Infancias

Local: Universidade Federal de Alagoas

Datas: 3 a 5 de julho






Fórum de Educação Infantil de Pernambuco/ MIEIB

Tema: O lugar da linguagem escrita na Educação Infantil: A BNCC em foco

Data: 19 de maio de 2017

Local: Universidade Federal Rural de Pernambuco
Rua Don Manoel de Mederios, S/N Dois Irmãos







Fórum de Educação Infantil de Pernambuco/ MIEIB

Tema: BNCC: Da terceira versão à prática educativa: percursos a serem construídos

Data: 19 de maio de 201

Local: Centro de Cultura Luiz FreireRua 27 de janeiro 181 - Carmo - Olinda



Eventos em outros países




Tema: Jornada Internacional de Educação Infantil: Infância, Ética e Cidadania


Local: Cosmo Caixa Barcelona (Transmissão online)

Datas: 8 de julho

Link para maiores informações e inscrições:  http://www2.rosasensat.org/pagina/jornada







quarta-feira, 3 de maio de 2017

A criança como investimento e a invisibilidade da infância


A criança como investimento tem sido um discurso muito propalado pelo mundo e especialmente nos Estados Unidos. Há inúmeras pesquisas (links abaixo) que buscam provar quanto vale o investimento na educação infantil para a sociedade. Há pesquisas que, para medir esse impacto, buscam cercar os resultados nas aprendizagens (por meio e testagens de larga escala)  das crianças nos primeiros anos do fundamental, nos anos finais e na adolescência, pesquisas que procuram demonstrar que a frequência na Educação Infantil diminui a criminalidade e tem impacto na melhoria da saúde ao longo da vida dos sujeitos que a frequentaram. A própria UNESCO apresenta o cálculo de que investir U$1,00 na educação infantil significa economizar U$ 7,00 quando as crianças estiverem adultas.

É um discurso atraente e muitas vezes convincente, mas também preocupante! Isso porque foca na importância da Educação Infantil apenas como investimento. E assim, se reproduz a lógica de que a criança só é importante como sujeito que virá a ser.

A ideia de infância, como uma fase especial e distinta do adulto,  surgiu quando a sociedade se tornou tão complexa que era preciso que as crianças fossem preparadas para viver nela e a escola o lugar dessa preparação (Àries). A ideia de infância surgiu na perspectiva de vir a ser e tem sido perpetuada ao longo dos séculos.

As criança já são! São sujeitos que, longe de ser passivos, atribuem significado ao mundo e as experiências que vivenciam, tem curiosidades, desejos e inquietações e  se manifestam por meio de múltiplas linguagens, como gestos, expressões faciais, oralmente,... Visibilizar os fazeres e manifestações dos bebês e das crianças pequenas, demonstrando a potência desses sujeitos, é uma forma de  valorizar a infância como tal, não como vir a ser. E são inúmeras pesquisas (link abaixo) de  áreas como a sociologia e a antropologia que vem demonstrando essa potência por meio de metodologias de escuta.

Não é a toa que em boa parte do mundo, os professores de educação infantil sejam tão desvalorizados! Quanto menor a idade da criança, maior a desvalorização de seus educadores. Se há uma desvalorização e uma invisibilização da infância na sociedade, há uma desvalorização das/dos profissionais que trabalham com ela. Se considerarmos que a maior parte dos profissionais da infância são mulheres, a desvalorização se acentua, haja visto a desigualdade de gênero que ainda perpetua.


É preciso defender uma educação infantil na qual bebês e crianças pequenas  possam viver plenamente suas infâncias, brincando e interagindo com seus pares e com adultos, conhecendo sobre o mundo que a cerca por meio das múltiplas linguagens - que o ser humano criou para interagir e se comunicar - e aprendendo a cuidar de si, do outro, do ambiente, por meio de interações saudáveis, onde as pessoas estar bem e felizes!

Bem-estar, felicidade, curiosidades, manifestações infantis e mesmo aprendizagens [1] não se medem por meio de testagens em larga escala do desenvolvimento infantil, nem com fórmulas matemáticas. Isso não significa que as instituições de educação infantil não tenham que ser avaliadas nas práticas que disponibilizam para crianças e adultos.

Por fim,  visibilizar a infância e construir práticas pedagógicas e políticas públicas destinadas à elas, envolve mais do que pensar sobre seu futuro e o futuro da sociedade, mas trata-se de discutir: o que se quer para a infância hoje! E cada cidade, cada instituição de educação infantil tem a possibilidade de ser um espaço de debate sobre a infância. Visibilizá-la e lutar por ela é o nosso compromisso como defensores da infância!


_______________
1. Aprendizagem no sentido amplo do termo e não do número de letras, palavras  ou números que as crianças são capazes de enunciar, como boa parte dos testes preconizam.


Links para algumas das pesquisas citadas no primeiro parágrafo:
https://heckmanequation.org/resource/invest-in-early-childhood-development-reduce-deficits-strengthen-the-economy/

https://www.purdue.edu/hhs/hdfs/fii/wp-content/uploads/2015/07/s_wifis31c03.pdf

https://www.ineteconomics.org/perspectives/blog/heckman-study-investment-in-early-childhood-education-yields-substantial-gains-for-the-economy

http://www.child-encyclopedia.com/school-success/according-experts/school-completionacademic-achievement-outcomes-early-childhood

Links e referências para algumas das pesquisas citadas no 4o. paragrafo:

http://www.laplageemrevista.ufscar.br/index.php/lpg/article/view/241

http://www.scielo.br/pdf/es/v27n95/a12v2795.pdf

CORSARO, W. A. Reprodução interpretativa e cultura de pares. In: MÜLLER, F.; CARVALHO, A. M. A.. Teoria e prática na pesquisa com crianças: diálogos com William Corsaro. São Paulo: Cortez, 2009. p. 31-50.

SARMENTO, M. J. (Coord.). As culturas da infância nas encruzilhadas da 2a modernidade. In: SARMENTO, M. J.; CERISARA, A. B. (Org.). Crianças e miúdos: perspectivas sociopedagógicas sobre infância e educação. Porto: Asa, 2004.









quinta-feira, 27 de abril de 2017

Políticas Públicas para a Educação Infantil: uma breve análise das pesquisas sobre qualidade nas perspectivas americana e brasileira

Estou cursando uma disciplina sobre políticas públicas em Educação Infantil em uma universidade americana esse semestre. Nesse curso, tenho tido acesso a várias pesquisas sobre como se dão as políticas públicas nesse país e como buscam medir o efeito delas.

Existem muitos programas para a Educação Infantil nos Estados Unidos, alguns poucos federais, como o Head Start destinado à crianças com famílias de baixa renda. Mas a maioria dos programas são estaduais, e nessa seara tem vários propostas desde de “vouchers” pra instituições particulares até programas informais de atendimento.

Nessa complexidade e variedade de atendimento, são muitas as pesquisas que buscam avaliar o impacto desses programas. O que mais tem se sobressaído nas leituras a que tenho tido acesso são as pesquisas que buscam medir efeitos da Educação Infantil a longo prazo, ou seja aquelas que medem o resultado das experiências das crianças nessa etapa para a vida posterior dos sujeitos. Nessas pesquisas, parece haver um consenso de que a crianças de baixa renda que frequentam a pré-escola com “alta qualidade” [1]mostram melhores rendimentos acadêmicos, tem acesso a melhores empregos e há uma diminuição de gravidez na adolescência e de atividades criminosas quando adultos. Há em geral um levantamento grande de dados sobre a situação econômica e estrutural das famílias ao longo do tempo e uma infinidade de testes são aplicados nas crianças desde a Educação Infantil até a adolescência.

O impacto dos resultados dessas pesquisas nas políticas públicas não é unânime entre os pesquisadores, mas parece haver um consenso de que para medir qualidade é preciso fazê-lo de forma objetiva, por meio de “dados precisos”.  Há por trás dessa perspectiva uma visão positivista que considera que a “boa” e confiável ciência é aquela que se mede por meio de surveys e dados numéricos.  
Organismos internacionais e alguns pesquisadores no Brasil, principalmente aqueles que partem da ideia de “criança como investimento” tem se alimentado e replicado essa lógica. São várias as propostas de avaliação em larga escala do desenvolvimento infantil nas instituições de Educação Infantil baseadas nessa perspectiva no país.

Por outro lado, outras pesquisas e documentos oficiais nacionais brasileiros, revelam uma outra lógica de investigação e de qualidade na Educação Infantil. Baseadas em estudos europeus, especialmente a partir das contribuições de Peter Moss, Aldo Fortunati entre outros e nos estudos da sociologia e antropologia da infância, trazem uma outra perspectiva para a medição de qualidade: “ a negociada”. Ainda que existam parâmetros e indicadores, é preciso escutar como os sujeitos significam essa qualidade, inclusive para aperfeiçoar esses indicadores que não são estáticos nem neutros e trazem em seu bojo uma visão de infância e de Educação Infantil.

A experiência do município de São Paulo entre os anos de 2014 e 2016, na construção dos “Indicadores  de Qualidade da Educação Infantil Paulistana” é reveladora dessa outra lógica. A partir de indicadores de qualidade levantados pelos documentos nacionais, diferentes segmentos (funcionários, familiares e por vezes, crianças) das instituições de Educação Infantil da cidade fizeram uma auto-avaliação das unidades e recriaram os indicadores ali presentes. As diferentes vozes foram escutadas, trazendo para as instituições um papel político na discussão sobre a infância na sociedade e na gestão democrática das unidades. Ainda que a metodologia possa ser aperfeiçoada e que seja necessário a criação de uma cultura de avaliação participativa, a proposta traz uma importante mensagem: as vozes dos sujeitos precisam ser consideradas quando se trata de avaliar qualidade,  inclusive a dos bebês e das crianças. O que parece estar longe do horizonte americano!

Olhando para essas diferentes perspectivas sobre medição da qualidade na Educação Infantil, vem à mente uma questão de fundo: Para pensar qualidade, é preciso pensar  o que se espera da Educação Infantil. A Educação Infantil se constitui uma panaceia para resolver problemas sociais? Trata-se de melhoria do desempenho acadêmico nas séries iniciais e posteriores (leia-se linguagem oral, escrita e matemática)? Trata-se de garantir que as crianças vivam uma boa infância? É uma iniciação à cultura humana, suas diferentes linguagens e suas formas de ser e estar no mundo? Essas alternativas são excludentes? Em que medida?

Concepções de infância, Educação Infantil,  de pesquisa e de quais são os sujeitos que devem ter suas vozes legitimadas (pesquisadores, profissionais, familiares e/ou crianças) induzem as políticas públicas. E políticas públicas afetam diretamente o cotidiano das instituições de Educação Infantil e as experiências as quais as crianças são submetidas.  

[1]não há consenso sobre o que seria isso, mas a tendência é considerá-la a partir de testagens em larga escala do desenvolvimento infantil)




domingo, 9 de abril de 2017

Os Foruns de Educação Infantil e as políticas públicas para a infância no Brasil

Olá a todas e todos!

Foi publicado o dossiê temático: "Políticas públicas e educação infantil" da Revista Laplage do Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos - Campus Sorocaba. 
Nesse número tem um artigo meu e da Prof. Lisete Arelaro sobre os Fóruns de Educação Infantil e as políticas públicas da área. Em tempos de retrocesso, é preciso resistir!

Para acessar o dossiê, segue o link: http://www.laplageemrevista.ufscar.br/index.php/lpg/issue/view/12/showToc

Para acessar o artigo, o link é: http://www.laplageemrevista.ufscar.br/index.php/lpg/article/view/238

Abraço,
Janaina

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Alfabetização obrigatória até os 6 anos. O que estamos fazendo com as nossas crianças?


Secretarias de Educação em diversos municípios brasileiros estão criando metas de alfabetização das crianças no último estágio da Educação Infantil. Em algumas uma delas, 90% das crianças precisam estar alfabetizadas antes de ingressarem no Ensino Fundamental com punições para as instituições de Educação Infantil que não cumprirem a meta. Em outras redes de ensino, foi aprovado no Plano Municipal de Educação, a alfabetização PLENA de crianças de até 6 anos de idade.

Ao nos depararmos com políticas públicas como as descritas acima, é preciso  questionar: que concepções de infância, de alfabetização, de educação estão por trás dessas decisões? O debate sobre a melhor idade para que as crianças saibam ler e escrever plenamente não é recente, mas ultimamente a pressão para que esse processo aconteça cada vez mais cedo tem se intensificado.

A defesa da alfabetização plena (leia-se decodificação do código escrito) antes dos 6 anos, com estabelecimento de metas a serem cumpridas pelas escolas, tem significado que as instituições de Educação Infantil devem privilegiar em seu currículo a linguagem escrita e o aprendizado de sua decodificação.

Diversos institutos de pesquisa, universidades e organizações de defesa dos direitos das crianças se posicionam contra essa prática na ocasião da discussão da Meta 5 do Plano Nacional de Educação - PNE. Na época o debate entre a alfabetização plena das crianças aos 6 ou aos 8 anos de idade estava intenso. No PNE, acabou por ser aprovada a alfabetização plena até aos 8 anos. Esses posicionamentos apontavam para os perigos dessa prática, que desconsidera os ritmos das crianças e desrespeitam o direito à infância. Seguem aqui alguns deles:

Fundação Carlos Chagas:

Rede Nacional pela Primeira Infância:

Ação Educativa:

Movimento Interfóruns de Educação Infantil – MIEIB

Contrastando com essa argumentação, está o Instituto Alfa e Beto na defensa da alfabetização plena das crianças na Educação Infantil. Sob o slogan: “Sucesso na escola, sucesso na vida”, o referido instituto vende sistemas de ensino apostilados voltados para a decodificação do código escrito para redes de educação infantil Brasil afora.
A argumentação em defesa da alfabetização plena na Educação Infantil apoia-se no fato já sabido que o Brasil ocupa um lugar baixo no ranking da educação mundial e que muitas crianças saem do Ensino Fundamental sem saber ler e escrever plenamente. Nesse sentido, defende-se que se as crianças entrarem no Ensino Fundamental já alfabetizadas, a educação brasileira atingirá patamares mais altos e as crianças terão mais sucesso na vida.

Mas o que a alfabetização “plena” na Educação Infantil tem significado para as crianças?

Não é por acaso que as crianças estão cada vez mais agitadas e desestimuladas nas escolas e as práticas de controle e de contenção do corpo infantil cada mais intensificadas. Muitos professores tem apontado a dificuldade de “segurar as crianças (de 3 a 5 anos, às vezes até bem mais novas) para que façam as lições”. Também não é por acaso que as crianças brasileiras estão cada vez mais medicalizadas e nosso país é o segundo em venda de ritalina (remédio para crianças com diagnóstico de hiperatividade).

Aqui, alguns artigos sobre a medicalização da infância no país que demonstram como esse cenário está preocupante no país:
https://scholar.google.com/scholar?q=medicaliza%C3%A7%C3%A3o+na+infancia&hl=pt-BR&as_sdt=0&as_vis=1&oi=scholart&sa=X&ved=0ahUKEwiK6v7HyoPSAhXslVQKHbw0ARAQgQMIGDAA

Não garantir a alfabetização “plena” aos 6 anos significa que as crianças na educação infantil não possam ser alfabetizadas? O que é alfabetização e como se dá esse processo?

Vivemos em uma sociedade em que a cultura escrita está muito presente. As crianças estão em contato cotidiano com esta nos anúncios publicitários, nos ônibus, nas placas de ruas, computadores, folhetos, jornais, revistas, entre outros. Muitas chegam à instituição de educação infantil curiosas e interessadas em saber como se expressar nessa linguagem.
Aponta o Parecer das Diretrizes Curriculares Nacionais de Educação Infantil de 2009:
Também a linguagem escrita é objeto de interesse pelas crianças. Vivendo em um mundo onde a língua escrita está cada vez mais presente, as crianças começam a se interessar pela escrita muito antes dos professores a apresentarem formalmente. Contudo, há que se apontar que essa temática não está sendo muitas vezes adequadamente compreendida e trabalhada na Educação Infantil. O que se pode dizer é que o trabalho com a linguagem escrita com crianças pequenas não pode decididamente ser uma prática mecânica desprovida de sentido e centrada na decodificação do escrito. Sua apropriação pela criança se faz no reconhecimento, compreensão e fruição da linguagem que se usa para escrever, mediada pela professora e pelo professor, fazendo-se presente em atividades prazerosas de contato com diferentes gêneros escritos, como a leitura diária de livros pelo professor, a possibilidade da criança manusear livros e revistas e produzir narrativas e “textos”, mesmo sem saber ler e escrever” (Parecer DCNs, 2009, p.15).

O parecer atenta para a profileração de práticas de alfabetização redutoras e mecânicas, que centradas na decodificação do código escrito (voltadas ao ensino de letras e sílabas soltas), não possibilitam que as crianças possam fruir ou atribuir sentido à utilização da linguagem que se escreve, que é justamente o que tem acontecido quando se exige a alfabetização “plena” antes dos 6 anos de idade.
Sobre o trabalho com a escrita, afirma  Luiz Percival Leme de Brito:
Não pertencer à cultura escrita, numa sociedade que se impõe por ela, é ficar expulso das formas do espaço real de existência e de legitimidade. (...) Mas é preciso ter claro que alfabetizar não é formar no domínio de uma técnica, mas sim pôr a pessoa no mundo da escrita, de modo que ela possa transitar pelos discursos da escrita, ter condições de operar criticamente com os modos de pensar e produzir da cultura escrita. (BRITO, 2005, p. 14) Antecipar o ensino das letras [na educação infantil] sem trazer para o debate a cultura escrita para o cotidiano é desrespeitar o tempo da infância e sustentar uma educação tecnicista (BRITO, 2005, p. 16)

Ou seja, incorporar e transitar entre os discursos escritos é muito mais do que saber as letras e aprender a juntá-las. Vygotsky, no início do século passado, já afirmava isso em seu texto, “A Pré-História da Linguagem Escrita”: Ensinamos as crianças a traçar as letras e a formar palavras com elas, mas não as ensinamos a linguagem escrita. (Vygotsky, 1995, p. 183). A alfabetização é um processo complexo e contínuo que exige que as crianças tenham capacidade de simbolização.
Simbolizar significa que as crianças compreendam que os signos como as letras não significam apenas a escrita do “A” ou do “B”, ..., mas que por trás dessas letras juntas há significado e que para aprendê-los, é preciso que se saiba que significado é esse. Como as crianças aprendem isso? Brincando e desenhando, afirmava Vygotsky. Quando uma criança de 3 anos pega um tapete e transforma em cobertor de boneca, por exemplo, ela está demonstrando que por trás daquele objeto há um significado que vai além do objeto em si. Para ler, escrever, contar, entender o pensamento científico e artístico, as crianças precisam passar por uma série de experiências que lhes possibilitem compreender como esses conhecimentos são construídos e simbolizados, ou seja, o que há por trás deles. Na ânsia de alfabetizar as crianças cada vez mais cedo antecipamos processos.

Mônica Correa nos ajuda a refletir sobre função da educação infantil no mundo das letras ao afirmar:
Não é na educação infantil que a criança se inicia na alfabetização. Esse processo se inicia fora das instituições escolares e, muitas vezes, antecede a entrada da criança nestas. Também não é nessa etapa educativa que a alfabetização se completará. A educação infantil tem como principal contribuição para esse processo que a criança se interesse pela leitura e escrita; fazer com que ela deseje aprender a ler e escrever; e, ainda fazer com que ela acredite que é capaz de fazê-lo. (CORREA, 2010, p. 15)

Se acreditamos que as crianças são sujeitos sociais, produtoras de cultura e que têm como uma característica importante a percepção estética do mundo, as práticas destinadas à elas precisam ser reveladoras desse princípio. Solicitar que “desenhem” e repitam letras, façam cópias e exercícios mecânicos de coordenação motora, por exemplo é desconsiderar essas dimensões do sujeito criança e tratá-la como um objeto que nada tem a dizer e que não pensa sobre o mundo, é submetê-las a ordem dos adultos.
É preciso sempre lembrar que trabalhar com crianças pequenas exige uma escuta profunda, envolve conhecê-las, entendê-las e apoiá-las em suas dúvidas, anseios, descobertas, conquistas e desafios. Aí reside a dimensão do cuidado educativo no trabalho com a infância e que serve de princípio inclusive nas práticas voltadas à linguagem escrita.
Não podemos nos esquecer que o trabalho na instituição da infância tem que ser coerente com o universo infantil e com sua maneira lúdica e estética de construir significados para o que experiência. O direito de ter acesso ao mundo da linguagem escrita não pode descuidar do direito de ser criança - e há muitas maneiras de se respeitarem as duas coisas. (CORREIA, 2010, p. 14).

Por fim, deixo aqui um relatório da Aliança pela Infância no mundo, elaborado por professores de diversas universidades americanas intitulado:  “Crise nos Jardins da Infância: Porque as crianças precisam brincar na escola”, que analisam os impactos das testagens e da escolarização precoce no currículo da Educação Infantil.

No marcador alfabetização desse blog há mais reflexões sobre o processo de escrita na Educação Infantil para quem se interessar, segue o link:

  Fica aqui o meu abraço preocupado, mais esperançoso que educadores da infância se juntem em defesa do direito das crianças viverem suas infâncias na escolas de Educação Infantil e Ensino Fundamental. E que todos – adultos e crianças - possam ser felizes e possam aprender  continuamente sobre o mundo nessa convivência!

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