O modo como o espaço é organizado na instituição da infância é muito revelador da pedagogia que é oferecida as crianças. O espaço é sempre retrato da relação pedagógica.
Como afirma Ana Lúcia Goulart:
“Um espaço e o modo como é organizado resulta sempre das idéias, das opções, dos saberes das pessoas que nele habitam. Portanto, o espaço de um serviço voltado para as crianças traduz a cultura da infância, a imagem da crianças, dos adultos que a organizaram; é uma poderosa mensagem do projeto educativo concebido para aquele grupo de crianças”
Um espaço cercado por mesas e cadeiras enfileiradas revela que o movimento das crianças não é considerado e que as propostas estão na mão do adulto que é o único que precisa ser visto e ouvido.
A própria decoração do ambiente é reveladora. Muitas vezes, o adulto no desejo de deixar o espaço bonito, o decora com cartazes e enfeites que não tem significado para aquele grupo de crianças e que é um referencial apenas para ele. Muitas revistas “pedagógicas” em especial aquelas destinadas a educação infantil infelizmente apresentam alguns desses modelos.
Para organizar um espaço é preciso sempre refletir sobre como pensamos a criança e a sua educação. Se partimos do referencial de criança positiva, criativa e criadora que é capaz de se expressar de diferentes maneiras e que buscamos seu desenvolvimento integral, alguns princípios precisam ser observados nessa organização.
Em primeiro lugar, o espaço deve ser fruto da relação estabelecida com as crianças. Sua decoração, os cartazes expostos devem refletir as indagações, descobertas e percursos daqueles que o utilizam. Muitas vezes vemos paredes nuas que, como aponta Madalena Freire, revelam o “estancamento e a diminuição da paixão de conhecer”, como se o que se está fazendo, descobrindo e vivendo não merecesse ser registrado e ter visibilidade.
Mas essa visibilidade das produções coletivas e individuais das crianças precisa ter sensibilidade estética, ou seja, precisam ser arrumados de uma maneira que sejam valorizadas. Amontoar ou simplesmente pregar os trabalhos e cartazes na sala também revela as crianças que aquilo não tem importância. Além disso, precisamos propiciar que as crianças adquiram sensibilidade para a organização de forma bonita e atraente.
Sentir-se pertencente ao espaço é outro princípio importante: um espaço em que há desenhos genéricos e organizado apenas pelo adulto ou paredes vazias não possibilita que as crianças o sintam como delas. Já quando elas participam da decoração e suas produções e a de seus colegas são valorizadas belamente esse sentimento fica muito marcante. Isso é nítido quando seus pais chegam para buscá-las e elas querem logo mostrar suas fotos, seus desenhos e pinturas com bastante entusiasmo.
Além da decoração, a organização do mobiliário e dos materiais é outro fator que precisa ser refletido.
Citando novamente Ana Lucia Goulart, o espaço precisa tornar-se ambiente, ou seja, ambientar crianças e adultos que lá convivem. Portanto é preciso considerar a dimensão física (o modo como é organizado materialmente) articulada sempre com as interações que se pretende que sejam estabelecidas ali. Essas dimensões são muito imbricadas.
A organização material e de mobiliário sempre é provocadora de interações. Por exemplo: um berçário lotado de berços revelam propostas pobres de interação, já que as crianças ficarão muito tempo confinadas individualmente. Por outro lado espaços muito abertos, sem nenhum material disponível também não provoca qualidade de interações e faz com que os pequenos necessitem intensamente da mediação do adulto. Já espaços com cantos definidos e rico em materiais provoca diferentes interações entre os pequenos, que passam a requisitar menos o adulto e brincarem de forma mais autônoma.
Por fim, o espaço precisa ser organizado de modo a contemplar as diferentes dimensões humanas: o lúdico, artístico, afetivo, cognitivo. Se as crianças se expressam nas múltiplas linguagens, como as temos contemplado no espaço que organizamos? Há lugar para livros, brinquedos e material de arte? Essas materiais estão disponíveis as crianças ou ficam na mão apenas do adulto? Essas são apenas algumas perguntas que podemos nos fazer.
Abraço!