domingo, 10 de agosto de 2014

Fotografia e a pedagogia da infância

A fotografia como questão atual

Facebook, celulares, Instagram... Se o que está acontecendo é uma pista, as experiências fotográficas vão se multiplicar de tal forma que os tempos atuais serão apenas a pré-história desse movimento. E esse movimento de escrever a história através das imagens não se restringe apenas ao mundo da arte, do jornalismo. A fotografia vem ocupando espaços em campos do saber: ciências, antropologia, meio ambiente, movimentos sociais e educação. Através do acesso aos recursos de produção de imagens (fotografar, editar, dar tratamento, arquivar) as pessoas estão aprendendo a "ler e escrever" imagens.  Elas estão aprendendo no seu cotidiano, sem se dar conta de que estão "lendo" fotografias a todo momento.

Nunca foi tão fácil tirar fotos. Hoje as câmeras digitais possibilitam fotografar em todas as direções. Fotos de filhos, viagens, eventos e fotos da sala de aula também. Quase que estamos viciados em apertar o botão da máquina - chamo esses ataques de "incontinência fotográfica". Mas depois, ficamos com uma sensação estranha. São tantas fotos que não sabemos por onde começar as nossas escolhas. Não sabemos quais fotos selecionar diante de tantas opções. E surgem novas necessidades. Por que não pensei antes de fotografar? Como planejar uma atividade a ser fotografada? Quais arquivar? Quais deletar? Por que minha máquina não fotografa do jeito que eu quero? Como posso transformar minhas fotos em documentação?

Considerando todas essas questões, não podemos pensar a documentação pedagógica como o simples ato de tirar fotos ou apenas a escolha técnica por uma boa câmera. Se pensássemos desse jeito, qualquer curso disponível em vários sites daria conta do problema.

A câmera é “burra”, ela não pensa. É apenas a extensão do olhar de quem a manipula. E esse alguém que fotografa pensa, decide o que mostrar e o que ocultar. O ato fotográfico sempre pede decisões de alguém. Decisões de planos e narrativas. E também decisões em nome de interesses, ideias e projetos. Por isso, podemos dizer que a fotografia revela como pensamos e agimos enquanto educadores. Ela, faltalmente, vai nos denunciar sobre o que realmente entendemos sobre educação, sobre a infância.

Por essas razões, antes de tudo - antes de nos perguntarmos sobre a melhor câmera, a melhor lente, o melhor enquadramento - é preciso perguntar o que é a fotografia, o porquê fotografamos. A fotografia não está fora de nós. Ela está dentro de nós, como uma “câmera interna” que pede por decisões sobre o que deve ser fotografado. Se atingirmos essa consciência fotográfica, o modo de como enxergamos e enquadramos o mundo da criança, melhor enxergaremos o que as crianças estão querendo nos mostrar e não apenas o que queremos ver enquanto adultos.

“No futuro o analfabeto não vai mais ser quem não sabe ler”, disse profeticamente Walter Benjamin no começo do século 20. “O analfabeto será quem não souber ver fotografias”. Com certeza, acabaram-se os analfabetos fotográficos. Todo mundo está "lendo" fotos. E a fotografia é mesmo um alfabeto. O próximo passo será escrever melhor. “Quem conhece e desenha bem as letras é um ótimo calígrafo”, dizia o fotógrafo húngaro André Kertész. E ele conclui que “O bom escritor tem que ter algo a dizer”.


André Carrieri
18 de Julho de 2014

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