Mostrando postagens com marcador Documentação Pedagógica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Documentação Pedagógica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Fotografando as poéticas da Infância


Olá a todas e todos!
Divulgo aqui o curso ministrado pelo Professor Fotógrafo André Carrieri sobre documentação Pedagógica. 
O curso Fotografando as Poéticas da Infância tem o objetivo de trabalhar a fotografia como ferramenta para conhecermos melhor a criança. Trata-se de fotos que dão visibilidade à forma como ela compreende o mundo.
Pensar as imagens nas suas diferentes formas e gêneros possibilitará desenvolver um olhar distanciado e reflexivo sobre as ações cotidianas da infância. Dessa forma, a fotografia na documentação pedagógica contribui para a ressignificação das práticas educativas.
Já realizei e super indico!
Segue o vídeo com depoimentos das alunas que cursaram a 1a. edição. 
Abraço!

















Eu na Avenida Paulista fotografando em uma das oficinas do curso




domingo, 17 de agosto de 2014

Documentação pedagógica

Olá a todos,
Disponibilizo hoje o terceiro texto escrito por André Carrieri sobre Documentação Pedagógica.
Aproveito também para compartilhar o vídeo: "Como fazer registros pedagógicos em foto e vídeo", produzido pela Nova Escola, que contém entrevistas e dicas  de André Carrieri, André Spinola e Bruno Mazzoco sobre a melhor maneira de registrar situações de sala para aprimorar nossa prática .



 Abraço!

A câmera é um brinquedo


O filósofo tcheco, naturalizado brasileiro, Vilém Flusser dizia que "a fotografia nunca vai ser uma profissão, porque a máquina é um brinquedo". O que queria dizer é que, diferentemente de outros instrumentos que o homem manipula no seu trabalho árduo, cotidiano, a câmera permite a experimentação, o jogo, a arte, e que o resultado depende de quem a utiliza.

A primeira associação que me vem à cabeça é que existe uma ligação forte entre fotografar e brincar. Essa ideia fica clara quando realizamos um passeio fotográfico pelo espaço urbano da cidade. Existem condições que nos levam a uma outra dimensão: um grupo de pessoas, fora do estado funcional na cidade, do tempo cronológico, coletando imagens fotografáveis. A concentração e o movimento corporal dessa experiência é suficiente para não querer parar de fotografar. Já vi acontecer com grupos em cidades como São Paulo, Salvador, Jundiaí, São Carlos. E agora, Belo Horizonte.

Na nossa saída pela cidade em busca de experiências fotográficas o professor não trabalha com a câmera, mas brinca com ela. Como um jogo de xadrez, o professor/fotógrafo procura um lance novo, uma imagem nova, a fim de realizar uma possibilidade oculta no jogo de fotografar. E essa pessoa que manipula a câmera "não é um trabalhador, mas jogador: não um homo faber, mas homo ludens", diz Flusser. A câmera funciona efetivamente em função da intenção lúdica do fotógrafo.

A afirmação "a máquina é um brinquedo" nos possibilita estabelecer ainda outras associações livres. Primeiro, que este aparelho está acessível a todos que querem "brincar" e que não necessariamente precisamos esperar por uma excelência profissional para sermos fotógrafos. Vincular o ato de fotografar ao ato de brincar legitima qualquer pessoa, fotógrafa ou não, a se arriscar mais. Segundo, que fotografar é como um jogo. O ato fotográfico é um jogo. Por isso, talvez, sentimos que nesse estado tão concentrado fotografamos com o corpo todo, usamos todas as nossas referências culturais, nos movemos rapidamente e, naquele exato instante, apertamos o botão da câmera, para conseguirmos uma "boa jogada".

Flusser fala que "fotógrafos não trabalham, agem. [...] o fotógrafo produz símbolos, manipula-os e os armazena. Escritores, pintores, sempre fizeram o mesmo. O resultado deste tipo de atividade são mensagens: livros, quadros, projetos. Não servem para serem consumidos, mas para informarem, serem lidos, contemplados, analisados e levados em conta nas decisões futuras". Parece que ele está querendo sintetizar a documentação pedagógica: conteudos lúdicos para serem lidos, contemplados, analisados e levados em conta nas decisões futuras.

No livro Filosofia da caixa preta (São Paulo: Hucitec, 1985), o filósofo termina o capítulo com um parágrafo sobre a câmera fotográfica que invoca a nossa participação para o jogo: "a câmera fotográfica é um objeto tecnológico, feito de plástico ou metal. Mas não é isso que a torna um brinquedo. Não é a madeira do tabuleiro e das pedras que torna o xadrez, jogo. São as virtudes, os caminhos possíveis contidos nas regras: o software". O software é a nossa maneira individual e intransferível de olhar e ler este universo feito de luz e sombra.


André Carrieri
29 de julho de 2014


domingo, 10 de agosto de 2014

Fotografia e a pedagogia da infância

A fotografia como questão atual

Facebook, celulares, Instagram... Se o que está acontecendo é uma pista, as experiências fotográficas vão se multiplicar de tal forma que os tempos atuais serão apenas a pré-história desse movimento. E esse movimento de escrever a história através das imagens não se restringe apenas ao mundo da arte, do jornalismo. A fotografia vem ocupando espaços em campos do saber: ciências, antropologia, meio ambiente, movimentos sociais e educação. Através do acesso aos recursos de produção de imagens (fotografar, editar, dar tratamento, arquivar) as pessoas estão aprendendo a "ler e escrever" imagens.  Elas estão aprendendo no seu cotidiano, sem se dar conta de que estão "lendo" fotografias a todo momento.

Nunca foi tão fácil tirar fotos. Hoje as câmeras digitais possibilitam fotografar em todas as direções. Fotos de filhos, viagens, eventos e fotos da sala de aula também. Quase que estamos viciados em apertar o botão da máquina - chamo esses ataques de "incontinência fotográfica". Mas depois, ficamos com uma sensação estranha. São tantas fotos que não sabemos por onde começar as nossas escolhas. Não sabemos quais fotos selecionar diante de tantas opções. E surgem novas necessidades. Por que não pensei antes de fotografar? Como planejar uma atividade a ser fotografada? Quais arquivar? Quais deletar? Por que minha máquina não fotografa do jeito que eu quero? Como posso transformar minhas fotos em documentação?

Considerando todas essas questões, não podemos pensar a documentação pedagógica como o simples ato de tirar fotos ou apenas a escolha técnica por uma boa câmera. Se pensássemos desse jeito, qualquer curso disponível em vários sites daria conta do problema.

A câmera é “burra”, ela não pensa. É apenas a extensão do olhar de quem a manipula. E esse alguém que fotografa pensa, decide o que mostrar e o que ocultar. O ato fotográfico sempre pede decisões de alguém. Decisões de planos e narrativas. E também decisões em nome de interesses, ideias e projetos. Por isso, podemos dizer que a fotografia revela como pensamos e agimos enquanto educadores. Ela, faltalmente, vai nos denunciar sobre o que realmente entendemos sobre educação, sobre a infância.

Por essas razões, antes de tudo - antes de nos perguntarmos sobre a melhor câmera, a melhor lente, o melhor enquadramento - é preciso perguntar o que é a fotografia, o porquê fotografamos. A fotografia não está fora de nós. Ela está dentro de nós, como uma “câmera interna” que pede por decisões sobre o que deve ser fotografado. Se atingirmos essa consciência fotográfica, o modo de como enxergamos e enquadramos o mundo da criança, melhor enxergaremos o que as crianças estão querendo nos mostrar e não apenas o que queremos ver enquanto adultos.

“No futuro o analfabeto não vai mais ser quem não sabe ler”, disse profeticamente Walter Benjamin no começo do século 20. “O analfabeto será quem não souber ver fotografias”. Com certeza, acabaram-se os analfabetos fotográficos. Todo mundo está "lendo" fotos. E a fotografia é mesmo um alfabeto. O próximo passo será escrever melhor. “Quem conhece e desenha bem as letras é um ótimo calígrafo”, dizia o fotógrafo húngaro André Kertész. E ele conclui que “O bom escritor tem que ter algo a dizer”.


André Carrieri
18 de Julho de 2014

sábado, 2 de agosto de 2014

Registro e Documentação

Olá a todos!
O professor André Carrieri escreveu uma série de textos sobre Documentação Pedagógica que nos ajudam a compreender melhor esse conceito e sua interrelação com a fotografia. Vou postando para vocês ao longo das próximas semanas.
Abraços!







1. Registro ou Documentação?

Registro é qualquer tipo de fotografia que deixa uma marca, o congelamento de um instante, marcado por um tempo e um espaço. Documentação Pedagógica - na forma de uma fala ou uma imagem da infância - torna visível uma situação de aprendizagem, dentro de um contexto pedagógico específico que envolve a atenção e o interesse de um grupo específico de crianças, de um grupo de educadores específicos que se debruçam sobre questões educadoras também específicas. Existe um mergulho pedagógico, uma discussão implícita, gerada por um grupo de indivíduos sobre a fotografia.

Você pode ter uma mãe fotografando uma criança "resolvendo um problema" dentro de casa, e mesmo assim não será documentação pedagógica. Um exemplo: a criança vê uma fruteira com bananas, arrasta o banquinho para alcançar as frutas. Embora tenha uma narrativa, embora tenha uma sequência, o ato fotográfico é um ato vindo de fora, isto quer dizer, sem discussão de um grupo, sem a imersão do fotógrafo num processo de aprendizagem coletivo. A imagem, nesse exemplo, é um registro, não uma documentação, porque é um fenômeno isolado, descontextualizado.

Acompanhemos uma rota paralela com a história da fotografia. Grosseiramente, podemos dividir a fotografia em três campos de atuação: fotojornalismo, propaganda, documental. O fotojornalismo, por exemplo, está para o registro simples, assim como a documentação está para o documental. A fotografia no fotojornalismo é uma marca, um congelamento de um fato, com uma profundidade relativa, com uma existência que vinculada ao tempo de uma manchete de jornal. Já a propaganda ela serve para protocolos de marketing, de comercialização, de venda. Nesse caso, até isso as escolas fazem, quando fotografam crianças felizes, brincando, servindo para um propósito de vender uma ideia de infância feliz. Montamos fotos "bonitinhas" para atingir o "cliente".

A documentação pedagógica conversa com o status da fotografia documental (o documentarismo nasceu na década de 1930, na Alemanhã e nos EUA). Ela carrega uma intencionalidade, um contexto social, cultural, histórico, de um tempo, de um lugar, de um grupo social ou de uma sociedade. Implicitamente, existe um autor, uma visão sobre uma história humana, uma interpretação de um artista, como um ensaio autoral. Na documentação pedagógica existe tudo isso, principalmente por haver uma intencionalidade pedagógica, uma leitura de um professor, ou de um grupo de educadores. Nesse caso, existe por trás da imagem um "pronunciamento", uma mensagem, um conceito a ser discutido. A vida útil dessa fotografia é maior. Ela serve a objetivos específicos de um grupo específico.

Podemos separar assim também: pensar numa imagem para ver ou pensar numa imagem para discutir. A documentação pedagógica busca imagens que promovam espaços de reflexão. Quando a foto fala "Olhe, meu filho está crescendo. Que gracinha!" é uma coisa. Outra coisa é ela dizer "Preste atenção, a criança está crescendo por esse motivo, dentro desse processo, junto com esse grupo, e com isso ela está querendo dizer alguma coisa". E nós, como professores que somos, estamos colocando a fotografia na roda, de um grupo de pais, de mestres, de crianças, para discutir.


André Carrieri
04 de Julho de 2014